Entender nossa cultura para compreender o nosso envelhecer




Confesso para vocês que retomar esse novo ano por aqui foi cheio de desafios. Afinal, estamos vendo muitas mudanças, não apenas no contexto de nosso país, mas também estamos observando mudanças significativas na saúde, de maneira geral. Ser profissional de saúde mental nessas horas se torna uma aventura já que nos chegam perguntas de todos os lugares, inclusive de familiares, sobre novas descobertas das ciências. Um lado positivo é que atualmente estamos com uma maior facilidade de acesso às pesquisas científicas, com mais divulgações dos resultados encontrados pelos cientistas, o que ajuda a difundir, para o púbico que não trabalha na área, os resultados e informações que podem contribuir para melhorar nossa qualidade de vida e também ajudar a prevenir algumas doenças.

Um estudo muito interessante - e aí precisamos valorizar e muito a ciência de nosso país, que tem profissionais excelentes e de extrema qualidade - foi produzido por uma pesquisadora brasileira, neuropsicóloga que entende muito sobre o processo do envelhecimento. Esse estudo foi realizado a partir da pesquisa de doutorado produzida por ela, sobre fatores de proteção que podem influenciar as perdas de memória que acontecem nesse processo de envelhecer e, estudando sobre este assunto, resolvi vir falar um pouco sobre esse tema e também sobre a importância da gente poder entender o contexto de vida do paciente e a cultura dele, para pensar sobre o que pode ou não ser considerado perda quando a gente fala em envelhecer.

Muitas vezes, e isso é também importante, lemos pesquisas que falam sobre o funcionamento das pessoas e verificamos padrões que são esperados para o funcionamento do cérebro de maneira geral. O interessante do trabalho apresentado por essa nossa pesquisadora é esse recorte ao detalhe importante para se compreender o contexto da população estudada e da relevância que isso tem.

Quando estamos na prática clínica com o paciente, acabamos ampliando esse olhar, já que, ao avaliar alguém, estamos falando do estudo do caso daquele paciente que nos chega. Dados das normas, do que é esperado e do que não é, são super importantes, afinal, a gente precisa ter uma ideia da “média”, de como a maioria das pessoas daquela idade estão. Com o aprofundamento dos estudos, pudemos observar que não só a idade, mas também a escolaridade, pode influenciar em como vai funcionando – ou deixando de funcionar – o nosso cérebro, enquanto envelhecemos.

Claro, ponto que sempre volto: é importante entender que sim, mesmo no envelhecimento saudável, assim como o corpo deixa de funcionar tão bem, é normal que o cérebro também vá perdendo um pouco da sua capacidade. Então, quando falamos em diagnósticos clínicos de pessoas que estão em algum quadro de demência, estamos falando de idosos que estão fora do que consideramos essa perda “normal” para a idade.

Tá, mas e o que tem esse estudo dessa pesquisadora? Tem que, ao avaliar e colocar a importância de se compreender o contexto cultural, isso também se mostra muito importante como fator de proteção para os idosos. Traduzindo mais um pouco: o trabalho dela traz a importância de se avaliar que, em países como o Brasil, ainda em desenvolvimento, nós temos de valorizar não apenas o estudo formal, ou seja, os anos de escolaridade como fator de proteção para menor risco de desenvolver alguma demência, mas que há outros fatores que contribuem também como fator de proteção.

Ai entra um conceito bacana que ela traz, que é o da avaliação da memória semântica: essa ideia, ou melhor, conceito de memória, é uma possível maneira de se compreender, dentre a divisão dos tipos de memória que temos, uma categoria específica da memória que diz respeito não só ao conhecimento aprendido na escola ou universidade, mas também com conhecimentos e categorias de informações que guardamos em nosso cérebro. Quase como se fosse a memória responsável por categorizar as coisas para que elas sejam guardadas, mais tarde, em diferentes memórias.

Então, esse estudo vem mostrar que nossa memória semântica e não apenas o conhecimento “escolar” propriamente dito, contribuem como fator de proteção para que a gente possa cuidar e prevenir esses quadros do envelhecimento. Tá, mas e onde a gente encontra “fontes” de memoria semântica? Nos livros que a gente lê, nas conversas e estudos que a gente faz, nas atividades do dia a dia que vamos aprendendo, nas trocas de conhecimentos e conversas que temos em nosso dia, em tudo o que, de certa maneira, estimula o nosso cérebro a ir guardando conhecimento sobre determinado assunto, independente de ser apenas um assunto acadêmico ou não. Isso tudo o que descrevi tem a ver com a nossa rotina, nosso meio e contexto em que vivemos. Outro dado que apareceu e que a autora fala da necessidade de se continuar estudando, é sobre a inteligência e como esta se mostra também como fator que pode influenciar na perda cognitiva.

Ao final, o que o estudo pontua, é a importância da gente entender sobre o contexto sócio cultural, sobre as oportunidades de acesso a diferentes tipos de conhecimentos e como estes influenciam em nossa memória semântica e, principalmente, sobre como as trocas que podemos ter em nosso meio podem contribuir de maneira positiva como fator de proteção para nosso cérebro na velhice.

Se formos traduzir para a prática da clínica e das orientações que precisamos passar para os pacientes, isso envolve não apenas avaliar o paciente com as medidas formais, mas ampliar o olhar clínico para qual o lugar daquele paciente em seu meio: o que ele faz, o que ele sabe, o que ele em algum momento sabia fazer e agora não sabe mais, o que nunca aprendeu – seja porque não teve oportunidade, seja porque não quis, o que ele gosta, o que não gosta de fazer para que, assim, a gente possa avaliar, de maneira integrada, aquela pessoa que nos chega e, consequentemente, possa também oferecer à ela, uma resposta e orientações baseadas em sua rotina, em seu dia a dia e no que faz sentido pra ela. E trazendo um conhecimento rápido de outros estudos, já sabemos também que nosso cérebro se mantém aprendendo até o último dia de vida, então mesmo nos quadros demenciais, dentro das possibilidades, temos todos a capacidade de aprender!

Então, se eu puder perguntar pra vocês: o que, na rotina e dentro do meio e da cultura que vocês vivem hoje, poderiam me contar que contribui para melhorar sua qualidade de vida e aquisições de novos conhecimentos, sejam eles “técnicos” ou não ? E o que poderiam incluir para ajudar na formação de novas possibilidades pra memória?


Espero que tenham gostado do texto! E até o próximo!



CAMILLA MONTI OLIVEIRA Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE. cmontioli@gmail.com

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