Final de ano, partidas, chegadas, começos e recomeços


Acho que falamos um pouco sobre isso no ano passado, mas esse ano o tema parece que me chegou de uma maneira ainda mais recorrente. A música da Simone tocou e as pessoas costumam tocar um sino interno juntamente: “e agora? O que eu fiz? Foi bom? Não foi? Deveria ter feito mais? Deveria ter feito menos?” Esse momento é um dos que, pelo menos de minha prática profissional, as pessoas decidem procurar o psicólogo. Meu telefone toca e é quase que pra ontem: “preciso de psicólogo e tem de ser hoje”; “preciso de avaliação, mas tem de ser agora em dezembro”. É como se uma urgência tomasse conta e tudo o que não foi resolvido durante o ano todo, precisa ser resolvido antes dele acabar.

Infelizmente, por mais que a gente, dentro das possibilidades, consiga acolher um ou outro caso, não tem como esse momento do ano, a gente resolver a vida de ninguém, até por que nossos problemas não aparecem apenas nesse mês pra serem resolvidos. Essa cobrança que tem crescido nos últimos anos, principalmente pela nossa produtividade sem fim, tem deixado a gente cada vez mais cobrando resultados que devem ser alcançados ao final de cada ano.

Mas gente, primeiro de janeiro tá aí, acordaremos e a vida vai acontecer do mesmo jeito quando finalizamos o último dia de trabalho ou de descanso de 2018. Pode parecer piegas e, muitas vezes, acaba não sendo normal a gente se dar conta de que, na verdade, as mudanças precisam começar dentro da gente. Que aquele papo do “o ano novo vai acontecer apenas se você mudar” é realmente verdade. Não é a virada de ano que vai trazer mudanças, se você não se dispôr a fazer algo por você. Não precisa ser uma grande mudança e é aí que muitas vezes a gente se enrosca: todo mundo quer mudar tudo muito e muito rápido. E esquece de ter paciência consigo mesmo.

Se eu tiver de dar dicas para vocês sobre possíveis resoluções, eu acho que começaria bem simples: se respeite. Olhe pra você hoje, pra sua história, para o que foi construído e, caso você queira pensar em planos, tente ser gentil com você ao querer algo pra si. Não tem problema nenhum fazer planos. Aliás, claro que eles serão bem vindos! Mas sejamos reais e gentis: precisa mesmo começar exigindo tanto da gente? Precisa mesmo ser dia 1 de janeiro pra mudar radicalmente a dieta, a rotina, as pessoas?

Será que não podemos colocar mais uma meta: ser gentil com a gente? Ser honesto de entender que não precisa ser no primeiro dia do ano, mas que precisa mesmo, é começar? Começar a entender que se quer diminuir o peso e tá difícil sozinho, será que a gente não pode pedir ajuda? Começar aos poucos? Tentar entender e buscar ajuda pra ver qual é a real da nossa relação com a comida? Precisa cortar tudo? Será que não podemos começar aos poucos? Incluindo alguma pequena mudança?

Incluindo mais uma dica, eu diria: comece quando fizer sentido pra você, mas coloque uma meta pra esse sentido poder começar. Não de supetão, mas de realidade. Que as pequenas metas possam surgir, como grandes amizades ou outros hábitos surgem dentro da gente: aos poucos, com tempo, sendo uma construção real, que faz sentido.

Pode ser que esse sentido seja pensado agora, mas ele desperte aí dentro numa quinta feira ensolarada de agosto. Ou num daqueles dias chuvosos de março. Ou dia 31 de dezembro. Ou só em 2020. Mas a ideia aqui, é que a gente possa parar e refletir no sentido real de cada mudança para a gente. E aí, não tem dia certo, a não ser que a gente se acerte primeiro. E quado acerta, pode ser com ou sem ajuda. Se tiver difícil de se acertar sozinho, bora lá buscar terapia!

Eu não tenho uma resposta pronta pra vocês, se é o ano novo que vai trazer algo. Acredito, pelas vivências e estudos, que ele ajuda a dar aquela impulsionada para a gente se comprometer com a gente mesmo a iniciar algo diferente aqui dentro. Se tiver sozinho, bora buscar alguém que ajude a dar sentido e ajuda. Mas, poderia roubar uma frase da Clarice Lispector, quando ela diz que mais importante na mudança, não é a velocidade, mas sua direção. Então, que nesse ano novo que se inicia, que a gente possa se permitir iniciar aqui dentro também, as mudanças. Das minhas resoluções que já começaram antes desse ano, tenho mais que certo que quero mais encontros com pessoas queridas. E espero que a gente se encontre mais por aqui nos posts, nos cursos e na vida! Que vocês possam também encontrar esse novo ano, aí dentro de vocês.


CAMILLA MONTI OLIVEIRA Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE. cmontioli@gmail.com

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