Sobre o amor e gênero na terceira idade


Esses tempos atrás tivemos uma enquete na página da Geratividade, na qual pedimos aos leitores que sugerissem alguns temas que tivessem interesse para que a gente pudesse escrever sobre. Confesso que um deles muito me chamou a atenção, pois pedia para que a gente viesse a falar sobre o amor e questões de gênero, sobre amar e fugir da heteronormatividade, isso é, falar do que fosse sobre amor para idosos gays, lésbicas e bissexuais. Falar de amor para fugir da heteronormatividade ainda não é questão das mais fáceis, já que enfrentamos diversos pré-conceitos e, como psicóloga, me vejo constantemente no papel de ter de, a todo momento, me despir do que entendo para então me dispor a entender o lado do outro. Cabe aqui, uma primeira ressalva importante: a Organização Mundial da Saúde não considera a homossexualidade uma doença, então não posso tratar alguém que não esteja doente. Meu papel, enquanto quem cuida da saúde mental de alguém, é poder oferecer escuta e acolhimento para a dor de quem me procura – seja hetero, homo ou unicórnio. Assim, caso alguém me procure com dificuldades sobre a própria sexualidade, o que posso, enquanto profissional da saúde, é acolher tal pessoa com sua dor e ajudá- lo (a) a lidar com o que vem sentido. Então, caso você se sinta incomodado, por favor, fique à vontade para me escrever e a gente conversa sobre, ok? A ideia aqui, com esse texto, é apenas falar de amor em suas diferentes formas e de como ele é possível para cada um. Partindo dessa rápida explicação, volto então a quando sugeriram falar sobre o amor na terceira idade para a população LGBT+ (a sigla, caso alguém não saiba o que significa, é de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e quem mais se sentir a vontade de se incluir), no que na hora me veio à cabeça. Lembrei-me de um filme que assisti tem uns anos, que mostrava a história de uma mesma casa, mas em três momentos diferentes da história dos Estados Unidos – o filme se chama “Desejo Proibido", é dos anos 2000 – e conta sobre três casais nestes três períodos da história. Se você for manteiga derretida como eu, já separa a caixinha de lenços, porque só de lembrar pra escrever pra vocês meus olhos já se encheram de lágrimas. Meu foco aqui vai ser pro primeiro casal, da década de 60: não vou contar toda a história pois acho que vale a pena vocês assistirem o filme todo, mas, em resumo, conta a história de duas senhoras, professoras que “nunca se casaram” e por isso, como grandes amigas, foram morar juntas e dividir as contas. Durante o decorrer da mesma, fica implícito que elas não eram apenas amigas, mas que este foi a maneira encontrada por ambas, para justificar à sociedade da época, uma maneira de viverem seu amor pelo menos dentro de casa, já que fora era inaceitável duas mulheres se apaixonarem. Faço outro corte então, para a realidade mais próxima, onde já tive a oportunidade de passear por São Paulo e, em determinadas áreas da cidade, sabemos que é maior a chance de encontrarmos a população LGBT+ passeando. Se você tiver a chance de um dia passear pra poder observar, acho uma delícia poder encontrar senhoras e senhores, casais gays da terceira idade sentados tomando seu café e conversando em um local público, sem medo de demonstrar um carinho ou afeto. A atualidade traz pra gente novas e diferentes formas de se relacionar e, ao olharmos para a população idosa homossexual, conseguimos observar o quanto estes vem se sentindo à vontade para pode falar e demonstrar mais o seu afeto. Os idosos de hoje também trazem consigo histórias e, o que estudos da área vem mostrando, é o quanto essa população finalmente pode, atualmente, buscar por seus direitos que, há 50 anos ou menos anos atrás, não existiam. Vira e mexe a gente encontra uma matéria ou notícia de jornal contando sobre algum casal que, juntos há não sei quantas décadas, finalmente pode oficializar seu relacionamento. Ah, você pode me perguntar por qual motivo isso é importante? Em termos legais, por muitos. E olha que nem sou a mais entendida de direito. Mas falamos sobre uma fase da vida em que invariavelmente, um cônjuge – salvo exceções – parte primeiro que o outro e, quem fica, necessita administrar os bens e tudo mais. Se você não é casado, necessita comprovar seu vinculo com aquela pessoa com quem “dividiu a vida” e, sem a formalização dessa união, muitas vezes cônjuges homossexuais perdiam o que haviam conquistado por toda a vida com seu companheiro. Há um certo mito de que idosos não se apaixonam, não possuem desejo sexual e não é nem permitido a estes falar sobre. Mas afeto faz parte da gente a qualquer momento da nossa história e apaixonar-se pode sim, durar uma vida toda ao lado de alguém, seja ele do mesmo sexo que a gente não, seja quando envelhecemos e, de repente, encontramos em outro alguém que já viveu tanto quanto a gente, mais uma nova chance de se apaixonar. A homossexualidade na terceira idade é ainda um assunto pouco discutido, não por não existir, mas sim por atualmente ser mais possível de ser falado sem ser um tabu. Ainda não possuímos uma estatística real de quantos casais existem no Brasil, documentados ou não, porém já sabemos que, mesmo sem a documentação oficial no sentido de “certidão de casamento”, esse amor sempre existiu. Falar sobre o amor na terceira idade, seja hétero ou homo, é super importante pois ele não deixa de existir. Precisamos é continuar dando voz e espaço para que ele, independente de orientação sexual, possa seguir existindo e a gente possa dar espaço para, seja também nessa idade, ele poder seguir seu fluxo natural. Com isso, podemos continuar estudando e compreendendo a importância das pessoas seguirem validando e dividindo a vida com quem amam. Se vocês assistirem ao filme, me contem o que acharam?

CAMILLA MONTI OLIVEIRA


CAMILLA MONTI OLIVEIRA Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês. cmontioli@gmail.com

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