Sobre setembro e seus significados


Confesso que esse mês é um dos que mais me deixam pensativa sobre ser psicóloga e também neuropsicóloga. É o mês em que dois temas importantes são debatidos na mídia e saem em evidência. O que é bom, por um lado, é que falamos mais sobre assuntos que não são fáceis de serem conversados e as pessoas, por ouvirem mais sobre, costumam buscar mais ajuda sobre eles. E é exatamente esse ponto que, pra mim, vira uma via de mão dupla – sendo então, boa e ruim ao mesmo tempo. Sim, é bom mesmo a gente procurar. Mas não é bom procurar SÓ naquela época e depois deixar pra lá. Alguns estudos tem mostrado que essas campanhas acabam mobilizando as pessoas apenas naquele mês. Isso, de longe, não significa que seja ruim, mas já pararam pra pensar como seria melhor ainda se o ano todo a gente parasse pra cuidar da nossa saúde de forma integral? Ou seja, se a gente arranjasse um tempinho não só pra cuidar do corpo, mas também pra cuidar da saúde mental?

Esse mês, traz então, a discussão de duas questões de saúde que tem crescido anualmente, cada vez mais, tanto pelo aumento de sua ocorrência quanto pelo destaque e discussões que vem aparecendo sobre elas. A primeira parte é a doença de Alzheimer, sendo então, o mês de setembro escolhido para se falar e conscientizar sobre o aumento dos casos, que tem a ver com o aumento da expectativa de vida da nossa população, dentre outras causas. A segunda, é o suicídio que infelizmente também vem crescendo em passos gigantescos – tanto aqui no Brasil quanto no mundo todo.

Tá, mas e dai? O que isso de algum jeito tem a ver com o que a gente fala aqui na Geratividade, sobre envelhecimento e tudo mais? Tudo! Estudando sobre este tema para esse texto, fui atrás das nossas temidas estatísticas! As informações atuais do Ministério da Saúde indicam que, por dia, cerca de 30 pessoas no Brasil acabam optando por colocar um fim em sua vida. Esses dados trazem os casos que puderam ser declarados e confirmados como suicídio, ou seja, talvez esse número possa ser maior, mas que não há como saber, por não serem informados; há os que acabam sendo declarados como acidente, mesmo sendo suicídio e há, também, uma ausência de estatística sobre os casos em que houve a tentativa, mas ela deu errado e a pessoa acabou com diversas sequelas após a tentativa.

Tá, mas e dai? Daí que fui atrás de buscar informações sobre o processo de envelhecer, o processo de adoecer na terceira idade e as estatísticas sobre o suicídio com essa população mais específica. E, confesso para vocês, que doeu aqui. Os números não são pequenos não. Estatisticamente, ou seja, ao se analisar a quantidade de suicídios por faixa etária, ele é a quarta maior causa de morte entre os jovens entre 15-29 anos, mas, em termos de números e quantidade, a maior faixa é dos idosos, a partir dos 70 anos. O que isso significa? Que a cada 100.000 pessoas de 15-29, cerca de 7 delas irão tentar se matar. E aí quando a gente olha a mesma proporção, de 100.000 idosos a partir dos 70 anos, são cerca de 9 deles que tentarão tirar a própria vida. Na faixa dos 60-69 anos, a média a cada 100.000 pessoas é de 7,7 pessoas. Ainda assim é alto, né?

Aprofundando nessas análises de dados do Ministério da Saúde, já ouvi muita gente dizer que tentar suicídio é coisa de mulher, por que mulher é “mais fraca”, tem mais depressão que homem e etc. E olha, os dados são diferentes! A maioria dos casos de suicídio no Brasil, é de homens (cerca de 79%!!!). Um último dado estatístico dessa pesquisa é sobre a escolaridade, ou seja, sobre quantos anos essas pessoas estudaram. Quanto menor a quantidade de anos de estudos, maior é o número de suicídios. Pela primeira vez, vemos o Ministério da Saúde falando sobre suicídio como um problema de saúde, divulgando como dado de epidemiologia, ou seja, indicando a importância de se cuidar e de prestarmos atenção a isso. Pra quem quiser saber mais sobre esses dados do Ministério da Saúde, tá aqui o link com a divulgação completa http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2017/setembro/21/2017-025-Perfil-epidemiologico-das-tentativas-e-obitos-por-suicidio-no-Brasil-e-a-rede-de-atencao-a-saude.pdf

Tá, mas e o que tem a ver o Alzheimer com isso? Muito assunto também! Os dados dessa pesquisa não trazem informações sobre possíveis diagnósticos clínicos que as pessoas apresentavam antes da tentativa, mas indicam que 59% das pessoas não passavam por algum transtorno diagnosticado no momento da notificação. Dai recorri às estatísticas internacionais aqui. Alguns estudiosos do tema, vem mostrando que o aparecimento das doenças crônicas (aquelas que a gente vai ter o resto da vida), aumentam a chance de um idoso acabar tirando a própria vida. Em específico sobre a doença de Alzheimer ou outras demências, os estudos mostram que há um aumento, quando comparado com idosos da mesma faixa etária – o que indica que a presença de doença pode aumentar a chance de um idoso optar pelo suicídio e isso pode ocorrer, principalmente, nos estágios iniciais da doença que é aquele momento da descoberta do diagnóstico, de quando a pessoa se dá conta das perdas que está tendo e por ai vai…

Ora, mas e ai? O que a gente faz com essa informação toda? Busca ajuda!!! Suicídio não é uma alternativa pra acabar com a vida. O que os pacientes que sobreviveram tentam contar é isso: o suicídio acaba, em determinado momento pra eles, sendo a única forma viável de acabar com aquela dor que ele estava sentindo. Então, hoje, o que quero com esse texto, é poder falar sobre a fragilidade da nossa vida. O quanto que é necessário, em qualquer momento, mas principalmente na terceira idade, seja ela com algum diagnóstico ou não, que a gente precisa cuidar das nossas dores. Que a gente não é obrigado a dar conta de nada sozinho e que se tá doendo, se a saúde mental não tá boa, a gente precisa pedir ajuda. O Centro de Valorização da Vida (CVV – telefone: 188) segue disponível para vários cantos do Brasil.

O cuidado da família, dos amigos, dos profissionais da saúde, também são fundamentais. Se necessário, vai pra psicoterapia, vai pro psiquiatra dar uma ajuda com medicação, vai criar novas formas de se distrair, vai fazer reabilitação pra colocar a cabeça pra funcionar – vai cuidar de você! Não tem uma receita de bolo, mas tem o nosso jeito de se fazer cuidar e pedir ajuda. Se a dor tá grande, a gente precisa dividir - dividindo fica mais fácil e mais leve de carregar.


CAMILLA MONTI OLIVEIRA

CAMILLA MONTI OLIVEIRA Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês. cmontioli@gmail.com

Posts Em Destaque
Posts Recentes