Comemoração em dose dupla- e o tanto que, sendo diferentes, nos parecemos.


Esse mês, de dois anos de Geratividade, é também o mês em que se comemora o dia do psicólogo (27 de agosto, anotem ai na agenda pra não esquecer dos parabéns! Obrigada!), então pensei de vir falar dessa comemoração em dose dupla. Fiquei pensando o quanto neste nosso caminho, nos cruzamos, aprendemos e reaprendemos. Fiquei pensando na neuroplasticidade- aquele conceito que diz que nosso cérebro tem a possibilidade de ir mudando e se adaptando a algumas coisas, até mesmo aprendendo, até o nosso último dia de vida. Então, pensando na neuroplasticidade, pensei também o quanto ser psicólogo é também gastar essa disponibilidade de se rearranjar. Além de neuropsicóloga, sou também psicóloga clínica, ou seja, além de avaliar pessoas, eu também trato em reabilitação e psicoterapia. Isso significa que a cada paciente que me chega, é quase como um mundo de inteiro histórias e possibilidades que se adentram ao consultório. Seja para uma passagem breve de avaliação, onde eu faço alguns encontros e me enfio naquele universo particular, seja na psicoterapia ou reabilitação, quando então tenho a possibilidade de me aprofundar naquele universo por um tempo maior. Se vocês me perguntam se é complicado ser psicólogo, posso dizer que sim e que não. Digo que sim, porque algumas vezes, as pessoas chegam e precisam deixar comigo algumas pedras doloridas, para que eu possa aliviar a dor delas e então elas ficarem mais leves para prosseguir. As pedras não ficam eternamente e, com o tempo, vamos dissolvendo ou aprendendo maneiras mais eficazes ou leves de carregá-las. Tem pedras que não se vão nunca, tem outras que se vão, tem outras que não tem nem como chegar, mesmo sendo necessárias. Tem dias que os pacientes vão embora do consultório, mas não de dentro do psicólogo e a gente precisar parar e entender porque ele ficou, mesmo já indo. Já aconteceu de sonhar com paciente, de não lembrar de paciente (não deixei de atender ninguém, fiquem tranquilos!) , de no meio de um domingo, fazendo algo nada a ver, pensar sobre algo de algum paciente que me ajudou a pensar sobre ele. Não é que não se desliga, desliga sim. Mas já me aceitei que esses momentos também acontecem. Quando digo que não é complicado, é exatamente por, quando abro a porta e uma nova pessoa chega, chega junto esse universo todo. Sinto como se de repente, nesse abrir e fechar de porta, um mundo inteiro chegasse a cada paciente estar ali disponível pra escutar, é dispor de se aventurar em diferentes universos com detalhes riquíssimos. Aprendo sempre sobre diversas profissões e como que elas acontecem, enquanto mergulho nesses universos. Aprendo que meu desejo e torcida pelo paciente precisam ser neutros e tem de respeitar o tempo de cada um. Aprendo que nem sempre eles vão corresponder às minhas expectativas e preciso me dar conta de quais são elas e até que ponto elas são saudáveis pra relação que construí ali com aquele paciente. Ser psicóloga tem me ensinado todo dia a maior arte- a da paciência. Seja de esperar o paciente chegar, de esperar o tempo de cada paciente perceber e se dar conta de suas dores e delícias e, mais importante, de ensinar a eles que a maior aventura ali no consultório, junto comigo, é a de se descobrir, de se conhecer e se respeitar dentro dessa aventura. Eu não sei e nem posso garantir que todos os seus problemas serão resolvidos e o paciente será feliz, mas sei que posso oferecer um espaço de escuta e orientação pra que ele possa entender sobre isso. Já tive e sigo explicando sobre como também não sei o que é melhor a ser feito – até porque não existe uma regra clara sobre isso. O melhor é relativo para cada um. A única coisa que a gente sempre recomenda é aquela tríade basica- coma bem, durma bem e pratique atividade física. O restante, varia tanto, tanto pra cada universo, que muitas vezes não sei como podemos falar sobre o que é ser humano sem cair em tanta contradição. Já me peguei em diversos momentos questionando se eu deveria saber- seja determinado resultado, seja determinada coisa para aquele paciente. Também já me ”descobrei“ outras tantas que tá tudo bem não saber e que tá tudo bem, também, eu poder dividir essa angústia com algum paciente que me questiona. E então podemos pensar juntos sobre como não sabemos- e que caminho poderemos seguir a partir de então. E nisso, claro, tanto pra psicoterapia quanto pra avaliação. Tem hora que eu não sei também, apesar de ir morar nos livros e artigos em busca das respostas. Não é fácil conversar com uma família e dizer que não há uma resposta pra tudo que ela gostaria de saber. Que talvez não seja um diagnóstico fácil ou que não se tem um diagnóstico. Ora, mas e a Geratividade entra onde nessa história? Quando fiquei pensando em como fui me criando enquanto psicóloga e pensando nesse meu lugar, fui revendo esses dois anos de criação da Geratividade, já que tive o privilégio de poder conhecer e torcer (ainda bem que nas parcerias a gente não precisa ser tão neutra na torcida). Assim como quando chega um paciente novo- não se sabia muito sobre o que seria dali pra frente, mas havia, e segue existindo, uma vontade de ir criar, de ir descobrir, de não saber, aceitar não saber e continuar procurando e criando novos sentidos, ainda que as pessoas cheguem perdidas de diferentes maneiras. O mais importante é chegar, se dispor a fazer algo acontecer. Chegar ao psicólogo já é algo, afinal, é necessário que o encontro aconteça pra que o trabalho do cuidado possa começar. Ser psicólogo, criar um novo negócio como a Geratividade, também precisou de se começar, de se buscar pra que algo pudesse acontecer. Assim como as pessoas, nós também nos dispomos a não saber e poder cuidar desses lugares para fazer acontecer algo. E, de quem fala do lugar de paciente, de psicóloga, de parceira de trabalho e também de fã da Geratividade, me enche os olhos de lágrimas de ver que, como dizia Vinicius de Moraes,” a vida é a arte do encontro” e que bom que tantos encontros e parcerias são possíveis de acontecer, pra tanto poder ser. Feliz dois anos de Geratividade, feliz mês do psicólogo e que a gente possa celebrar tantas construções acontecendo, ainda sem saber de tudo, mas se permitindo deslumbrar a cada novo passo, a cada novo acontecido. Obrigada a quem constrói aqui junto com a gente também!

CAMILLA MONTI OLIVEIRA Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês. cmontioli@gmail.com

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