Sobre férias e as possibilidades de se divertir com criança



Esse mês de férias escolares sempre vem recheado de novidades. Caso o idoso tenha netos, geralmente esses vem passar uns dias com os avós. Se sem netos, sempre tem um sobrinho, uma criança vizinha, alguém da “menor idade” que aparece junto. Claro que o pique para brincar com as crianças já não é mais o mesmo, ainda que a vontade do coração seja. A rotina e vida diárias dos pais e crianças atualmente se modificou demais quando comparamos com a vida dos pais quando crianças. Era sim diferente. Não sei se melhor ou pior, mas sei que diferente. Então, quando nas impossibilidades do dia a dia os idosos têm acabado que não conseguem conviver tanto com crianças, surgem os momentos de férias onde isso se torna possível. E por que crianças e idosos podem se beneficiar desse convívio? Primeiro, porque estamos falando de afeto, ou seja, crianças quando se dispõe a brincar, elas buscam o contato, a diversão, o chegar junto e poder se divertir e, com isso, costumam não medir esforços na brincadeira e nos carinhos. Criança gosta de colo, de abraçar, de tocar, de apertar... e, muitas vezes, por diversas razões da vida, adultos e idosos acabam se esquecendo dos benefícios de abraços e carinhos. Nosso cérebro gosta e muito de um “trem” (falando um belo mineirês, não achei palavra melhor para definir) que tem dentro dele chamado ocitocina. Esse “trenzinho” ajuda a gente a se sentir melhor, se acalmar e até mesmo a dar uma forcinha pros nossos neurônios ficarem mais fortes- como se desse aquela animada maior neles, quando alguns já estão um pouco capengas. Outro aspecto importante é a questão de tirar a gente da rotina. Sabe aquela música que canta “todo dia ela faz tudo sempre igual”? Nosso cérebro adora se acostumar com rotina, até porque isso ajuda a gente a não gastar tanta energia sem saber o que vai acontecer em seguida. Acontece que muitos idosos, ao se aposentarem, acabam também entrando em uma rotina com poucos estímulos e aí o cérebro se acomoda com pouca atividade física, e mental, na maioria das vezes. Mudar a rotina de alguém, mesmo que alguns dias das férias ou da semana, ajuda nosso cérebro a sair desse estado de calmaria que ele busca sempre encontrar. É como se o cérebro já ficasse mais esperto, querendo entender o que vai acontecer e se dando conta que o de todo dia, não vai acontecer mais, ainda que por alguns dias. Dai, gente, claro que vale a gente ponderar: não saber e não ter rotina nenhuma, é extremamente angustiante em toda fase da vida. Um mínimo que seja de planejamento, de organização, de saber que dali três dias algo está para acontecer, é super necessário também, se não nosso cérebro não descansa. Mas ter criança pra conviver alguns dias, significa essa aventura, novos passeios, novas brincadeiras e novas maneiras da gente estimular o cérebro de idosos e das crianças também. Um terceiro ponto, penso ser a respeito de como, nesses períodos, a gente- adulto, criança, adolescente e idoso- também se permite mais conviver com essas pessoas, sejam idosos da família ou algum vizinho ou conhecido que de tão próximo, virou família do coração. E de como esses momentos vão se desdobrando pra todo mundo se encontrar mais. Seja naquela festa junina do bairro, no encontro programado na casa de alguém, das possibilidades que parece que mesmo não estando de férias de verdade, a sensação do mês de férias, acaba nos picando e nos fazendo dar um jeitinho de todo mundo se encontrar. Quarto ponto, remetendo as festas juninas, traz junto os jogos e brincadeiras- as trocas que ocorrem, as pessoas se juntando para jogar bingo, estimular a atenção, a audição, o quanto da da pra perceber que crianças e idosos se juntam para um objetivo em comum e vibram deliciosamente quando ganham algo. Por último, eu acho que deixo uma reflexão para gente, que também não tenho resposta... de como é que aqui no Brasil, sendo uma temporada de frio, a gente consegue dar tanto mais jeito de se encontrar e esquentar não só o corpo, mas também o coração com afeto? E como é que esses encontros ajudam tanto a gente a se abraçar, se tocar e se permitir estar mais perto? Seja por necessidade, por desejo, por que quer. E, enquanto escrevo para vocês, fico aqui pensando que não quero perder muito mais tempo por aqui, afinal daqui a pouco o bingo começa e quero encontrar algumas “avós postiças” para juntas brincarmos mais um pouco com as crianças que conhecemos. E, caso você, idoso ou idosa não tenha netos, que tal uma visita em alguma creche para ver como você pode ajudar a criançada? E você, que tem filhos, já pensou em retomar também o contato com os familiares perdidos? Ou então visitar algum asilo e levar diversão para quem está lá? Afinal, não é só sobre levar diversão, é também estimular o cérebro em novas aventuras e atividades, é produzir ocitocina, é também ressignificar algumas das nossas experiências, seja qual idade estivermos.

CAMILLA MONTI OLIVEIRA Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês. cmontioli@gmail.com

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