Quem tem medo do Alzheimer?


Essa semana fui procurada por uma mulher, cuja queixa principal era o funcionamento da memória. Estava esquecendo compromissos, perdendo prazos, e decidiu que deveria procurar um neurologista para um exame que explicasse o que estava acontecendo. Queria, antes disso, saber minha opinião, já que trabalho com avaliação e estimulação da memória. Até aí, nada diferente para um consultório psicológico. Apenas mais um caso de alteração cognitiva em uma paciente com medo de Alzheimer. Havia apenas uma particularidade neste caso que me chamou bastante atenção: A paciente tinha pouco mais de 30 anos. Para quem não conhece, a doença de Alzheimer (DA) é o principal tipo de demência ao redor do mundo. Chama-se de demência uma doença incurável que causa a morte dos neurônios, que são as células cerebrais responsáveis por todas as atividades do nosso corpo. Apesar de muitas pesquisas serem realizadas sobre a DA, ainda não sabemos exatamente qual a principal causa. Dentre as possíveis causas, destacam-se a genética (isto é, ter histórico familiar) e o avanço da idade, pois quanto mais idoso, maiores as chances de desenvolver a doença. Voltando ao caso, a mulher que me procurou não tinha histórico familiar para DA, tampouco tinha idade avançada. Como vocês podem imaginar, este caso não se tratava de Alzheimer. É sabido que muitas outras condições podem causar alterações na memória, como o próprio estresse e a sobrecarga que esta paciente estava enfrentando. Trouxe esse pequeno exemplo, dentre tantos que já vivenciei, para levantar a questão: Quem aí tem medo do Alzheimer? O medo do Alzheimer entre as pessoas idosas não é infundado. Estudos apontam que, nos próximos anos, milhares de pessoas desenvolverão demência no Brasil, muitas antes mesmo de chegar aos 60 anos. Para ser mais preciso, até o ano de 2050 teremos 350 milhões de casos de demência nos países em desenvolvimento. Isso significa que, nos próximos 30 anos, o índice de demência irá triplicar! E infelizmente, por melhor que esteja sua memória hoje, isso não anula a possibilidade de você estar nessa estatística amanhã. Nem mesmo eu. Como pesquisadora, tenho observado os estudos mostrando a prevalência da demência crescendo de modo exorbitante. Como psicóloga, vejo claramente o reflexo dessa estatística sobre as queixas que chegam ao meu consultório: 10 a cada 10 idosos que eu atendo tem medo de ter problemas de memória. Alguns, de fato, o tem e querem ajuda para melhorar sua condição. Outros, porém, não apresentam um problema significativo que atrapalhe de algum modo, e querem prevenir-se antes que isso aconteça. E é exatamente sobre isso que esse texto irá tratar. Apesar de ainda não existir uma vacina contra o Alzheimer, uma série de estudos concluiu que um em cada três casos de demência pode ser prevenido. Isso mesmo, demência tem prevenção! E o melhor: as medidas a serem adotadas aplicam-se a todos os tipos de demência, seja causada pela doença de Alzheimer ou não. Os estudos mostram que, no decorrer de nossa vida, desenvolvemos hábitos que podem ser prejudiciais à nossa saúde e que, a longo prazo, aumentam nossa chance de desenvolver demência. Em alguns casos, o combate a esses fatores de risco pode impedir a doença de aparecer. Em outros, pode desacelerar a progressão da doença e retardar o aparecimento dos sintomas da demência em até cinco anos. Os fatores de riscos dividem-se em dois tipos: modificáveis ou crônicos. No caso dos fatores que são crônicos, isto é, que duram anos ou até o fim da vida, o que se pode fazer é monitorar e controlar os sintomas. Temos como exemplo doenças crônicas como diabetes, a obesidade, além de condições como perda auditiva, hipertensão e depressão. Nesses casos, é importante que sejam realizadas avaliações periódicas para acompanhar a progressão da condição e assim tratá-la do modo mais adequado possível. Dentre os fatores que podemos modificar, estão o tabagismo, o sedentarismo, o isolamento social, a obesidade e o baixo grau de escolaridade. Isto é, ter um estilo de vida saudável (que inclua prática de atividades físicas e nutrição adequada), ter contato social e desafiar sua mente são seus principais aliados para proteger-se de qualquer demência. E quando falo em desafiar sua mente, estou falando em sair da mesmice do cotidiano e aprender coisas novas. Isso inclui aprender novos hobbies, como fazer artesanato, tocar um instrumento, ajudar em um projeto voluntário, ou ainda participar de atividades de estimulação cognitiva com um profissional capacitado para isso. Seja quem for você, seja qual for sua idade, não tem problema ter medo do Alzheimer. Eu também tenho às vezes. O problema é ter medo e não fazer nada a respeito. Você pode sim se proteger da demência, mas para tanto, a construção de hábitos de vida mais saudáveis deve começar muito antes dos sessenta! Há uma frase que diz: “Envelhecer é como velejar. Você não pode parar o vento, mas pode ajustar as velas para chegar a um lugar mais agradável no futuro.” E você, o que tem feito no presente pelo seu futuro?! Para quem se interessar pelo assunto, recomendo a leitura do estudo na íntegra: Prevention and management of dementia: a priority for public health. Frankish, Helen et al. The Lancet, 2017.

TAIS FRANCINE DE REZENDE Convidada especial no Blog Geratividade. Psicóloga pela Universidade Federal de São Carlos – CRP 06/138437. Mestranda em Gerontologia e Especializanda em Reabilitação neuropsicológica pela Universidade Federal de São Carlos. Realiza atendimentos clínicos e avaliação psicológica com pessoas de todas as idades. Trabalha com estimulação cognitiva e neuroreabilitação para idosos. Contatos: taisfrezende@hotmail.com WhatsApp: (16)981684148 Página no facebook: Psicóloga Tais Rezende

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