Por que a medicação não consegue reverter um quadro de demência?


É muito comum os pacientes idosos e seus familiares chegarem frustrados ao consultório depois de ouvirem do médico que os acompanha que a medicação não vai reverter, ou melhor, não vai melhorar o que o paciente já perdeu, mas que vai apenas “atrasar” o restante das perdas que, inevitavelmente, vão chegar.

Dentro de nosso modelo de saúde tão bem conhecido, a gente acabou se acostumando com a ideia de que todo remédio que a gente toma, de que o médico vai orientar no sentido da cura. A gente tem muito enraizado, de maneira geral, a focar nessa ideia de que para quase tudo há uma cura e que a função do remédio é, em seu lugar comum, esse lugar que traz a cura para algo do corpo que não vem funcionando corretamente.

Dolorido é quando junto com o diagnóstico, vem esse tal “prognóstico” (ou, como já muito escutei: esse futuro nada bom…) trazendo a informação de que não, não há “cura”, apenas maneiras de se amenizar, atrasar o que vai ser inevitável. Mas o que ocorre no nosso cérebro que não “deixa” que a medicação recupere o que foi perdido? Primeiro, a gente precisa entender que todo conhecimento ou memória que temos, tem, à sua maneira, um caminho já fixo no nosso cérebro. Igual quando num local com grama, passamos sempre e o caminho, com o tempo, vai se formando, sabem? É quase assim que nossas memórias e conhecimentos são “guardados” no cérebro. Logo, quanto mais a gente treina aquele caminho, mais forte ele fica. Tentem se lembrar aí, do quanto algo novo que vocês aprenderam, no começo não demorava muito mais para ser feito e, depois, ficou muito mais fácil? É por que em um primeiro momento, o cérebro de vocês teve de “desbravar” uma mata fechada, indicando pros neurônios, que eles seriam, a partir dali, os caras responsáveis para fazer a tal daquela informação passar naquele caminho. E aí, quanto mais a informação passou, mais firme o caminho ficou.

Só que quando envelhecemos, pode acontecer do solo (ou os neurônios que já ficaram por ali, coordenando aquele caminho) ir perdendo sua força e se desintegrando, como naqueles filmes de aventura onde a passagem vai caindo depois que o herói passou, impedindo daquele caminho de sempre ser acessado.

Um segundo ponto, que as pessoas acabam se assustando, vem da observação de que os idosos acabam se esquecendo primeiramente, de coisas atuais, mas não se esquecem daquelas coisas do passado. Acabam, em alguns momentos, confundindo histórias e pessoas, chamando um neto pelo nome do irmão, por exemplo. Isso também vem desses caminhos. Quanto mais antiga a memória, é como se o caminho já tivesse mais “enraizado”, ainda que nem sempre recordado. Quanto mais nova a informação, em um cérebro já não funcionando tão bem, é como se, mesmo ensinando aquele caminho pros neurônios, eles não tivessem a mesma força pra se manter como caminhos e, em alguns momentos, eles não conseguem mais nem criar uma sombra do que poderia ter sido aquele caminho.

Até hoje, ninguém, nem mesmo os cientistas, sabem muito bem explicar por que motivos alguns neurônios se desintegram de determinada maneira e outros não. O que a neurociência já sabe responder para a gente, é que há sim, uma certa influência dos nossos genes. Genes são como nosso código de barras, onde já vem escrito nas nossas células, o que teremos de características e etc. Já se sabe que pessoas que tem alguém na família com alguma demência, terão maiores chances de também terem, porque irão carregar esse código de barras que diz que pode “ativar” a desintegração de neurônios.

“Poxa, mas antigamente não tinha tanto quanto hoje em dia”. Sim, pode ser. Estatisticamente, ou seja, através da análise dos números de pessoas que tiveram esse diagnóstico, realmente é verdade, mas por outro motivo: não é que as pessoas estão ficando mais doentes com demência. Nossa população, no geral, está também mais velha, ou seja, antigamente as pessoas morriam antes de começarem a desenvolver os quadros de demência. Hoje em dia, como estamos vivendo mais, novas doenças tem aparecido – como principalmente, as demências em idosos.

Quando a pessoa procura o médico, ou sua família quem procura, estes já perceberam que alguns ou vários caminhos, não estão mais funcionando muito bem. A medicação vai entrar, então, tentando não deixar que os solos que ainda não foram destruídos, tentem ficar firmes para não se desintegrarem rapidamente. Infelizmente, ainda não sabemos como barrar essa queda dos caminhos. O uso da medicação vem ajudar nesse fortalecimento, para que os caminhos possam durar um pouco mais. Outra possibilidade, é a estimulação ou reabilitação cognitiva, que vai servir, como já falamos, como uma ginástica para esses neurônios aguentarem também um pouco mais. Ainda não temos relatos científicos de “retornos”, mas os neurocientistas vem conseguindo comprovar como o uso da medicação, assim como da reabilitação, os idosos tem conseguido atrasar significadamente, as perdas inevitáveis das demências. Para além disso, para ajudar que nossos caminhos cerebrais não se percam facilmente, vem sempre aquela recomendação de sempre, mas que não custa nunca relembrar, né: atividade física, amigos, boa alimentação, leituras e diversão. Cuidar da gente tem de ser sempre, de maneira integral. Vamos seguir fortalecendo nossos caminhos cerebrais!



CAMILLA MONTI OLIVEIRA

CAMILLA MONTI OLIVEIRA Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês. cmontioli@gmail.com



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