A saúde mental masculina



Quando se fala em autocuidado, a primeira coisa que nos vem em mente, geralmente, é o que se fala para mulheres, porque mulheres seriam – para o senso comum - naturalmente preocupadas com a aparência e com o corpo. Existem diversos equívocos nessa ideia, mas primeiramente precisamos entender de onde vêm essas concepções.

Todos nós nos desenvolvemos em algum ambiente e então interiorizamos muitos fatores deste ambiente: família, comunidade e sociedade em geral. Então desenvolvemos crenças a respeito de nós mesmos e do mundo que guiam nossas ações e adotamos muitos hábitos e comportamentos que muitas vezes são automáticos, não pensamos sobre o porquê deles. Hoje em dia em especial, somos constantemente expostos a estímulos repletos de atribuição de valor. Aprendemos com esses estímulos as definições de bonito, feio, alto, baixo, magro, gordo, aquilo que vale à pena, o que não vale, onde é seguro, onde é perigoso, o que é autocuidado e o que é autodestruição. Acontece que se a gente não se questiona, não exercita o pensamento sobre tudo o que nos cerca, podemos acabar aceitando todas as ideias que nos vendem e perder a noção da nossa individualidade.

Para falar sobre a saúde mental masculina, faço o convite para que você se permita questionar as crenças a respeito de um valor específico: o masculino ou a masculinidade. É constatado que os homens buscam menos serviços médicos, adotam menos hábitos relacionados à boa saúde e recorrem com maior frequência a álcool e outras drogas.

De forma resumida, os estereótipos relacionados à masculinidade, ou seja, as características atribuídas ao “homem ideal”, são de um homem que tem tudo sob controle, tudo mesmo, inclusive as pessoas ao seu redor; um homem que não fala de sentimentos, porque seus sentimentos são inabaláveis, já que tem tudo sob controle; um homem que resolve qualquer problema que apareça, sozinho; um homem jamais se deixa submeter a outra pessoa; e que sobretudo, não se permite confundir, em hipótese alguma, em qualquer nível com um homossexual.

Diante destes preceitos, a masculinidade se torna frágil, pois comportamentos como usar hidratante, fazer dieta, decidir não fazer uso de álcool, buscar ajuda médica e psicológica, demonstrariam fraqueza. Esses estereótipos altamente destrutivos são incutidos desde a infância com uso de frases como “homem não chora”, “isso não é coisa de menino” e punições para comportamentos considerados inaceitáveis como brincar de boneca ou colorir as unhas.

Os discursos se mantêm nos diversos ambientes, em todos os momentos da vida e as punições também e por isso se torna tão difícil desconstruí-los. Desta forma, muitos homens demonstram estar bem, porém estão sofrendo intensamente, e não se permitem buscar ajuda para não se revelar “fraco” aos outros. Os meios usados para exteriorizar o sofrimento são com frequência autodestrutivos como o uso excessivo de álcool, condução perigosa, reações exageradas, etc. Na vida conjugal, muitas vezes a relação é prejudicada pois se o homem ceder à mulher, se sentirá “menos homem”, ou sentirá que não está no controle. Porém, ninguém pode controlar outra pessoa, e uma relação conjugal deve ser pautada no respeito. A masculinidade e o respeito por muito tempo foram colocados como antagônicos e a violência doméstica é um problema muito sério que está relacionado a essa construção da subjetividade masculina.

Entretanto se nos questionarmos sobre a atualidade, quem tem controle sobre todos os aspectos da vida? É um momento de diversas incertezas, de grandes mudanças que acontecem muito rapidamente na forma como o mundo está organizado, na forma que consumimos, na forma que vemos a nós mesmos, nos comunicamos, as relações, as tecnologias. O homem do século 21 tenta seguir as regras do século 20 e falha, pois é uma tarefa fadada ao fracasso.

Portanto, é urgente que na nossa relação com crianças sejamos mais tolerantes e leves, entendamos que menino chora, fala de sentimentos, aprende a nomear os sentimentos e a demonstrá-los. Na relação com os adultos sejamos também tolerantes, demonstremos apoio e possamos estimular que eles busquem ajuda, conversem e passem por psicoterapia. Que assim, possamos desconstruir esses estereótipos, que homens e mulheres cuidem mais de si, do corpo e da mente.


Larissa Gomes Lobo

Larissa Gomes Lobo

Psicóloga (CRP: 06 / 142720). Atende homens e mulheres adultos em São José dos Campos pela abordagem cognitivo-comportamental. Convidado especial no Blog Geratividade.

larissagomeslobo@gmail.com

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