Quando a gente vira a “mãe” de nossos pais


Confesso que vir escrever essa semana foi bem difícil e dolorida. Pensei, pensei, pensei e esse tema me voltava na cabeça, mas o coração doía e então eu me falava: “escreve de outra coisa”. Daí voltava a pensar, e nada. Então decidi que talvez fosse necessário colocar aqui em palavras com vocês, esse compartilhamento de dores e angústias de quem também cresce e tem de se dar conta e lidar com o envelhecer de todas as maneiras. Quero dividir o texto de hoje com vocês, filhos, que vem se dando conta de que os pais estão envelhecendo. No consultório, quando me solicitam uma avaliação neuropsicológica de idosos, estes sempre chegam acompanhados de seus filhos e estes – tanto pais quanto filhos, ao terem de lidar com a possibilidade ali mais real do encaminhamento médico para uma possível investigação clínica que pode dizer o quanto “não está tudo bem” com aquele pai ou aquela mãe, não é fácil. Muitas vezes, estes custam a chegar: ligam, questionam, perguntam como que funciona, se demora muito, já que o médico pediu e eles querem saber qual o futuro daquele diagnóstico com nome muitas vezes aterrorizante que o médico colocou no papel solicitando a avaliação. É angustiante, eu sei. Mas deixa eu contar um segredo: é angustiante pra todo mundo. Tanto para quem chega, quanto para quem avalia, já que muitas vezes sou eu a portadora das más notícias, junto com o médico – o mais comum é o médico, junto com a avaliação de diversos e diferentes exames, poder confirmar sua hipótese clínica e então “fechar” esse diagnóstico. Mas sou eu também quem, na devolutiva (quando conversamos com o paciente e seus acompanhantes sobre os resultados da avaliação neuropsicológica) vai falar sobre os comprometimentos, as dificuldades que já chegaram, o que foi que já se perdeu. Algumas vezes, tá tudo bem. Outras, tá só um pouquinho “não tão bem”. Mais difícil mesmo é quando não tá nada bem. Porque ali, então, se concretiza aquele medo de que a “velhice” chegou mesmo – que as perdas estão aí escancaradas e que agora vamos ter de lidar com elas realmente. Não vai dar mais pra fingir que “ah, é normal da idade”. Aqui é quando a gente precisa se dar conta – tanto equipe de saúde quanto família – que já passamos do que era normal da idade e vamos ter de falar do anormal, da doença, do patológico. Enquanto filha (sim! Psicólogo também é filho, também é pai e mãe, tio e tia e mais um tanto de coisas depois da profissão!) também me coloco neste lugar de imaginar e me dar conta de que o tempo vai passando. Que nossos pais, que em algum momento eram independentes e nos mostraram o mundo, vão precisar da gente pra continuar explorando o mundo. Também vai ser necessário que a gente possa reapresentar o mundo para eles, dentro de novas possibilidades. A gente vai se dando conta que enquanto filho também vira um pouco “pai e mãe” quando nos preocupamos se eles estão lembrando de tomar o remédio direito. Quando a gente se questiona se a casa não tá grande demais pra eles – que muitas vezes ficaram morando no que era antes a nossa casa. Então a gente se pega pensando nessa função do cuidar, tão inerente na nossa cultura, como sendo função materna: “será que eles lembraram que tem que levar a blusa?” “será que tão comendo direito?”. E, quando alguma doença se instala, isso parece que grita dentro da gente: “e agora? Como é que eu vou cuidar de quem sempre cuidou de mim?” Por que sendo eles quem sempre souberam de tudo, como é que eu vou saber algo pra cuidar? Nossa cabeça dá um “bug”. Ela trava e ao mesmo tempo, com a doença ali, ela também nos diz: não adianta travar por que agora é a hora que eles vão precisar de você. E aí, tudo muda, de algum jeito. De minha experiência, vejo que as famílias, através do afeto, do amor, e, muito importante, não sem muita dor e aprendizagem, na maioria das vezes, se descobrem possíveis de se reinventarem. Não quero com isso, dizer que é mágico ou fácil. Ou que tem uma receita-de-bolo-infalível-que-é-só-você-seguir-os-três-passos-para-ter-sucesso-em-tudo. A receita não tem. Ou então, a receita é aquela que a gente aprende deixando do nosso jeito, por que quem sempre soube fazer, nunca escreveu, “fez tudo de olho” e sempre foi elogiada. Nessas horas é que a gente vai aprendendo como é que a gente, olhando e percebendo, vai ter de construir nossa receita pra esses novos papéis poderem funcionar. Da perspectiva dos pais, também é bem sofrido, já que eles, principalmente no início dos quadros demenciais, conseguem perceber os erros, as falhas, os esquecimentos e, muitas vezes ficam tristes. Se não cuidam dessa tristeza, deprimem e aí que a doença pode piorar. Algumas vezes as famílias se rearranjam e filhos voltam a morar – com sua nova família ou não – para a casa dos pais, para acompanhar de perto a rotina de cuidados. Novas pessoas convivendo, o cuidado se estreitando, mais gente pra dividir o feijão e somar as contas. Aliás, as contas que, dependendo, os pais não vão mais conseguir gerenciar e então nós, filhos, vamos nos dando conta do quanto já se pode ter perdido antes deles terem pedido ajuda. Virar, para filhos, os gerentes da casa outrora tão bem gerenciadas nas nossas doces memórias, a “mãe” chata que fica mandando tomar banho e escovar o dente, dentre tantos outros cuidados, nos faz descobrir novos papéis que não saberíamos que existiria. Para os pais, também é reviver que, assim como em algum momento antes, eles também viraram esses cuidadores, agora chegou a vez de serem cuidados: de descobrir o valor de se ganhar um colo, uma ajuda, uma sopinha quente e um abraço, o esperar alguém chegar para saber mais do dia. Quando os filhos se descobrem nesse lugar do cuidar e a troca é possível de acontecer, os pais – idosos – também se dão conta desse outro lugar – o de se permitir ser cuidado. E, enquanto essa troca acontece, mais fortalecemos a chance de, se não houver cura, de um adoecimento cercado de afeto, de companheirismo necessário para que se possa lutar, enquanto possível com o melhor exército que temos: o de quem amamos e cuidamos. Que logo depois desse dias das mães, a gente possa revisitar nossas histórias e oferecer esse lugar – tanto de pais, quanto de filhos, já que podemos sempre trocar. Agora vocês me deem licença, que preciso aproveitar um colo enquanto limpo uns ciscos aqui do olho depois de finalmente, parar de brigar comigo para escrever pra vocês.

CAMILLA MONTI OLIVEIRA Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês. cmontioli@gmail.com

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