A visita inesperada


Aquele deveria ter sido um começo de mês como os demais, estávamos entrando em março. Minha manhã se iniciava e eu acabava de chegar ao refeitório para tomar café. Quando me dei conta da data, sem pretensão, comentei sobre a proximidade do Dia das Mulheres. Maria, que estava bem próxima emendou com cara de espanto:

_ Dia das mulheres? Mas eu já sou velha!! E antes que pudesse responder, ou digerir a informação de que ela não se sentia pertencente ao grupo, Deise que passava naquele momento, completou:

_ Nosso dia mesmo, é o dia dos avós! Primeiro a surpresa: como ou por que não se consideram mulheres e merecedoras desta comemoração? Segundo a reflexão: Como o inquestionável (você continua a ser mulher independente da sua idade) se desfez nesses minutos, nessas vidas? O café da manhã me durou o dia todo. Aquela conversa me fez pensar e repensar, analisei o cenário da instituição: a maioria dos moradores são mulheres, viúvas cuja vida foi dedicada em prol dos seus cônjuges e muitas vezes abdicando seus desejos e até necessidades, outras, solteiras, priorizaram o cuidado de familiares mais velhos ou trabalharam em casas de família. Já não mais se tratava de uma data especial. Era um compromisso em entender, se não se sentiam mulheres, o que elas sentiam ser? Como mudar isso? Será que se esqueceram da condição de mulher por terem perdido seus maridos? O que as rugas implicam nessa percepção? O surgimento delas é inversamente proporcional à condição feminina? O que eu precisava fazer, já sabia, tinham que se apropriar de si e do universo mulheril. O desafio foi lançado, para o dia 8 de março, algo teria que acontecer e marcar aquelas senhoras. Bingo! Rosas! Foi então que pensei em rosas para homenageá-las. Mas tão clichê, tão comum... Quem poderia entregar essas flores? Um visitante! Alguém que viesse apenas para trazer essas rosas e fizesse com que se sentissem importantes. Alguém que as surpreendesse e resgatasse a delicia da feminilidade já esquecida. Chegou a tarde do grande dia, em meio às atividades comemorativas do 8 de março, uma música diferente ecoou pelo refeitório. Ouviam-se cochichos pelas mesas, até que um silêncio reinou quando uma das portas se abriu: surgia dali um marinheiro, homem bonito, forte, alto, vestido de terno branco e azul, óculos escuros (tinha até um cap!), trazia consigo um grande buquê de rosas. O burburinho foi aumentando cada vez mais e muitas reações foram surgindo, algumas manifestações de surpresa, sorrisos, indignação e até mesmo faces maliciosas. O marinheiro beijou a mão da primeira, tirou uma flor do grande buquê e lhe entregou, naquele momento, o sorriso não cabia no rosto dela, e os olhos de ambos, tinham o mesmo brilho. De um lado o resgate da feminilidade, do outro a troca de afeto, a admiração. Cada uma das idosas recebeu sua rosa, cada uma teve sua estória lembrada e valorizada num punhado de pétalas. A individualidade do momento fez todas as reações serem únicas, puras e cheias de esperança. O homem bonito foi além, dançou ao som da música, convidou algumas senhoras para dançar, tirou o terno branco, a camisa... Algumas gostaram do que viram, era a primeira vez que via um homem daquele jeito, naquela situação. Outras acharam um pouco demais, tinham vergonha de se permitir olhar, mas não tiravam os olhos. A euforia tomou conta dos corredores da instituição, os sorrisos de alegria, alguns misturados com incredulidade, porém todos tinham a plena convicção de que aquela tinha sido uma experiência inusitada. Existe um ditado popular que diz “Mar calmo, não faz um bom Marinheiro”, ouso dizer que mar calmo não faz uma boa instituição para Idosos, é preciso inovar, dar vida. Condições físicas de cuidado são essenciais, mas não podemos esquecer das atividades que promovam autonomia, aprendizados e momentos agradáveis. Não mais podemos aceitar instituições como sinônimo de espera da morte, de descanso, recolhimento e exclusão. Temos que trazer vida para quem esta vivo, independente de sua idade. Ressignificar, dar sentido. Fazer de um dia, uma data, não mais um, mais uma e sim aquele dia. Se acreditarmos ou deixarmos alguém acreditar que a partir do dia que entrar na velhice, a pessoa perde seus papéis primários sociais, estaremos compactuando com um crime: apagar histórias maravilhosas que devem ser contadas e valorizadas!

MARIANNA BARBOSA YAMAGUCHI Graduada em Psicologia pela Universidade São Judas Tadeu e Gerontologia pela Escola de Artes Ciências e Humanidades EACH-USP. É especialista pelo núcleo Paradigma em Terapia Analítico-Comportamental, pós graduanda em Reabilitação Neuropsicológica pela Universidade Federal de São Carlos e mestranda pelo programa de Mestrado profissional Interunidades em Formação Interdisciplinar em Saúde pela Universidade de São Paulo. Atualmente coordena um Centro Dia para Idosos em São Paulo e Co-autora da página Universo Gerontológico. Contato: marianna.yamaguchi@gmail.com

CAMILA SATO Graduada em Gerontologia pela Universidade de São Paulo, bacharel em Musicoterapia pelo Complexo Educacional FMU, pós graduanda em Reabilitação Neuropsicológica pela Universidade Federal de São Carlos. Realizou capacitações em Reabilitação com música pelo Instituto Yura Rhythm Japan e dança sênior pela Instituição Bethesda. Atuou em centro de reabilitação gerontológica, na Prefeitura de São Paulo com políticas públicas e na Estação Ativamente com estimulação cognitiva por meio de jogos eletrônicos. Atualmente realiza intervenções em centro dia. Contato: camilaskanashiro@gmail.com

LAÍS TAVANE Gerontóloga graduada pela Universidade de São Paulo e coach pelo Instituto Brasileiro Coach. Atua numa empresa privada no setor de humanização de saúde.

Escreve por hobby e dedica seus dias a desenvolver pessoas.

Contato: lais_tavane@hotmail.com

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