Nosso cérebro muda quando ingerimos álcool por longos períodos?


Aproveitando o gancho do texto da querida Gabriela no início desse mês, quando ela falou dos riscos de drogas lícitas na terceira idade, queria aproveitar esse meu texto para falar um pouco a respeito do uso que a ciência chama de crônico, ou seja, aquele uso que a gente considera por um longo período da vida da pessoa. Muito mais comum que a gente imagina, é não considerar aquela cervejinha do dia a dia como uso “crônico” já que é “só uma, né?” Na verdade, tomar mesmo que uma única cervejinha ou pinga todos os dias ou quase todos os dias já é sim considerado uso de risco para se falar em abuso de álcool. Falando assim, fica até forte, né? Então, algumas vezes precisa ser forte para que a gente se assuste e possa refletir sobre isso.

E ai, pode ser que a gente tenha se dado conta de que bebeu um pouquinho todo dia achando que não teria problema, mas também nunca conseguiu deixar de beber esse pouco. Tem gente que não bebe todo dia, mas passou a vida aproveitando os finais de semana para beber tudo o que não bebeu durante a semana. Todo mundo conhece alguém assim: aquele parente, amigo, conhecido que sempre bebeu, conhecido do bar inteiro, que provavelmente chegou a passar algumas vergonhas por ter bebido demais, mas que tudo bem, afinal ele trabalha e segue a vida dele.

Esses são os dois extremos mais comuns que encontramos, que muitas vezes conseguem seguir com a vida normal, são produtivos, trabalham, tem alguns problemas, mas no geral, na sociedade, não são vistos como “causadores” ou dependentes de álcool e acabamos generalizando para falar de quem faz uso abusivo, apenas como aquela pessoa que fica largada na sarjeta depois de ter dado problema.

Quando a gente se dá conta de quem nem sempre é assim tão distante, provavelmente, a gente se assusta e claro, já nem quer saber por que não tem nada a ver com a gente ou com ninguém que a gente conhece. Os pacientes ao chegarem para avaliação, nunca chegam com essa queixa direta.

Os estudos mostram que o uso contínuo de álcool influencia em nosso cérebro de maneiras que não sabemos ou percebemos como sendo efeitos dele. Dependendo da quantidade e do tempo que as pessoas bebem, elas podem desenvolver uma Síndrome pouco conhecida pela população, mas que quando chega para os profissionais de saúde avaliarem, já chega com algumas dificuldades que nem sempre são fáceis de serem revertidas.

A Síndrome de Korsakoff pode ocorrer em indivíduos que fizeram uso abusivo e contínuo de álcool durante um período ou por grande parte de sua vida que, junto a falhas na alimentação podem ocorrer nessas pessoas. Não significa que toda pessoa que fez uso de álcool vai desenvolver tal síndrome, mas os estudos mostram que existe uma relação que poder vir a acontecer, conforme explicado aí em cima. Com o aumento do consumo de álcool no mundo todo, cada vez mais essa síndrome vem aparecendo e sendo diagnosticada nos consultórios de diferentes profissionais.

Claro, cabe ressaltar que nem todo mundo que bebe vai desenvolver essa síndrome, mas precisamos estar atentos para os prejuízos que o uso do álcool pode trazer. Alterações de memória, de planejamento, de tomar decisões no nosso dia a dia, de aprender coisas novas podem ocorrer em qualquer idade. O que muda, na maioria das vezes, é o tamanho do prejuízo que teremos dependendo da idade em que se iniciou isso. Na dúvida, vale a pena pensar a respeito do uso que você tem feito do álcool na sua vida, até mesmo para se ajudar a no futuro, não ficar com tanto medo de apresentar problemas de memória ou outros. Grupos de apoio, psicoterapia, além de avaliação médica constante são sempre orientações válidas. Se você já é idoso e percebeu que tem algumas dificuldades e que chegou a fazer uso do álcool, vale a pena verificar como estão essas alterações através da avaliação neuropsicológica e até mesmo um seguimento com um gerontólogo de sua confiança.

A perda de memória em idosos pode ter diferentes causas, é claro, mas precisamos estar atentos a que outros hábitos e cuidados ao longo da vida esses pacientes tiveram que podem influenciar nessa perda de memória quando chegam nessa idade. E também vale a pena refletirmos, a todo momento, qual a função que beber tem em nossa rotina. Será para afastar dos problemas todos os dias? Será por que as coisas andam difíceis e é melhor não pensar? Será que é a única maneira que se encontrou para socializar e encontrar os amigos? São questionamentos que precisamos fazer sempre não só com o álcool, mas também com outras drogas e comportamentos que temos. E sim, eu sei, não é uma tarefa fácil pensar em tudo isso não!

A gente se dar conta de que o fazemos com nosso corpo em qualquer fase da vida pode influenciar em nossa vida mais para a frente, também faz parte do nosso planejamento futuro. Cuidar, em qualquer fase, faz sim a diferença. Aquele clichê de que “nunca é tarde para começar” serve muitas vezes independentemente da idade. Claro, ao envelhecermos, nosso cérebro não tem mais a mesma disposição, mas daí já é assunto para um outro post, né? Já pensou ai o que você pode fazer por você hoje para estar melhor quando envelhecer? Espero vocês no próximo texto!


CAMILLA MONTI OLIVEIRA

CAMILLA MONTI OLIVEIRA Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês. cmontioli@gmail.com


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