Sobre ser Gerontólogo


O tema desse mês no blog é falar a respeito dessa profissão que quem coordena a Geratividade escolheu seguir. Quando recebi a proposta, confesso que fiquei um tanto quanto receosa. Como é que a gente fala do outro sem falar da gente? Como não pisar em um terreno e lugar comum? Como é que a gente pode saber escrever quando ficamos com um frio na barriga para falar de colegas que tanto admira?

Se é uma enorme responsabilidade? Com certeza. Quando a gente vai falar de alguém ou de sua profissão, a gente precisa é visitar a nossa própria experiência. Visitar dentro da gente, como é que aquilo ou aquele alguém tocou a gente e nos trouxe uma boa ou má experiência. Então, queridos leitores, vocês me dêem licença poética hoje, porque não sei muito bem como separar essa vida profissional da vida pessoal, ou melhor, como separar a Geratividade, o ser um Gerontólogo, das pessoas que me apresentaram tal profissão.

Fiquei, a princípio, pensando na atuação profissional. Afinal , sendo profissional da saúde, o que mais vamos nos dando conta durante nosso crescimento profissional é da importância de se trabalhar em equipe. De saber que o meu conhecimento enquanto psicóloga e neuropsicóloga, vai até um certo momento, quando então eu preciso recorrer a outros profissionais para complementar a minha ação. Fui então ler a respeito das definições e termos científicos que a gente busca de apoio, quando precisa estudar e se aprofundar em determinado assunto.

Para além do google, o que muitos livros e estudos vem mostrar é que o ser Gerontólogo, como em um primeiro momento eu me peguei pensando, não tem a ver só com o adoecer. E isso foi um dos primeiros pontos que mais me impactou. Trabalhando na saúde, a gente se acostuma, na verdade, a trabalhar com a doença. No geral, são mais raros os casos em que a gente atua com pacientes saudáveis e tem a possibilidade de cuidar da saúde de fato. Dai então, ao buscar estudar sobre o “ser” Gerontólogo, me deparei exatamente com isso. Com a possibilidade do cuidar do envelhecimento saudável, do natural, do que pode ser, para além do apenas adoecer.

Em mês de festa, onde a gente comemora um ano de blog, de sucesso, de desafios diários para escrever, é belo e significativo que a gente possa comemorar, também oferecendo esse lugar de quem quer sim, continuar olhando e cuidando não só da doença, mas também da saúde. Das diferentes possibilidades que podemos ter ao cuidar.

Dai, é claro, me dei conta do quanto é que eu me perdi pensando sobre o ser Gerontólogo e minha real experiência com esses profissionais. Quem me apresentou todo esse universo, foi também quem criou esse blog que tenho a honra de todo mês vir escrever. E confesso, não tenho como vir falar do ser Gerontólogo sem falar sobre a minha experiência com essas profissionais. Então gente, se prepara, por que aqui caiu um cisco gigante no olho, enquanto escrevo.

Começo falando da admiração. Admiração que vem pelo tamanho da responsabilidade que é a gente se dispor a estudar pra cuidar do outro. A empreender, a se colocar como uma nova possibilidade de cuidado. A profissão de Gerontólogo é uma das mais recentes, sendo reconhecida há 100 anos apenas. Uma das primeiras graduações no Brasil, iniciou-se há cerca de 10 anos atrás apenas. Ah, os Gerontólogos ainda são crianças, mas já tão capacitados e envolvidos no cuidar da pessoa idosa. De fato, tudo o que é novo, vem sempre recheado de desafios.

Vou então fazer um paralelo: quando chegamos nesta última fase da vida o que mais vivemos foram os desafios. É neste momento em que temos mais experiência e condição de poder olhar para a história e até mesmo avaliar o quanto nos arriscamos. É chegada a hora de compartilhar experiências e também se dar conta das perdas que são impossíveis de não ocorrer neste momento. Mas também é a hora que mais temos condições de perceber o quanto viver é um grande desafio. E todos os dias, apesar das pernas cansadas, de algumas outras dificuldades que o envelhecer traz, há sempre o novo desafio. O de não se deixar cansar, mas também aprender a lidar com novos limites e como podemos desafiá-los de novas maneiras, todos os dias.

Fiquei pensando o que ser Gerontólogo é ser também esse grande desafiador. Que se dispõe a cuidar e poder trabalhar com esse mesmo desafio diário: o de se arriscar a novas descobertas, quando as perdas podem ocorrer a qualquer momento. É saber que algumas vezes, não se tem como apenas correr sem parar por grandes ganhos, mas redescobrir a todo momento como alguns “pequenos” ganhos com quem se cuida, se transformam em enormes desafios capazes de mudar diferentes mundos internos.

Do meu lugar “psicóloga” observo diversas questões que me chegam, sejam psicológicas ou neuropsicológicas e me percebo com diferentes limitações. Principalmente no cuidado com idosos. E, ao poder cada vez mais aprofundar esse laços profissionais e de amizade com Gerontólogos, me vejo sendo cuidada também, pois com elas, eu consigo perceber que, tudo bem que eu não saiba de tudo ao cuidar, por que existem profissionais especializados em acolher, avaliar e também orientar de uma maneira ampla, buscando, assim como quem os procura, outros profissionais, parcerias, colegas e possibilidades para que o cuidado possa ser integral.

Do meu lugar pessoal, o conviver com essas profissionais, me aproximou também das figuras que estão para além do profissional e que sigo admirando e torcendo para que essa parceria dure por muitos anos, para que assim eu possa aproveitar dessa amizade que cresceu junto com esse trabalho. E aí quando digo que fica difícil separar, digo do lugar de quem se inspira com essas pessoas na luta diária da vida. Dos percalços, dos desafios e também da resiliência e da vontade de fazer acontecer, que passa por cima de qualquer dificuldade, para seguir inspirando.

Que neste mês que se comemora um ano de blog, que se comemora também o mês do Gerontólogo, eu peço licença também pra poder comemorar esse grande encontro que pudemos viver: o de grandes Gerontólogas se disponibilizando a cuidar da maneira mais ética, sincera e profissional com tantos pacientes e também conosco, redatoras desse blog. Que possamos cada vez mais, ter grandes profissionais inspiradoras como vocês. E que essa vontade de fazer acontecer, possa acompanhar a todos que de alguma maneira, chegaram até aqui pra dividir e compartilhar da sua história com a gente.


Camilla Monti Oliveira

CAMILLA MONTI OLIVEIRA Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês. cmontioli@gmail.com

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