Embalagens e a não acessibilidade


Quem nunca teve dificuldade na hora de escolher o melhor produto para levar para casa, seja pelas informações presentes no rótulo, pela apresentação da embalagem, por sua facilidade de preparação, abertura do produto ou até mesmo pela aparência da embalagem? Se aqueles mais jovens possuem tanto questionamento durante o momento da escolha, o que dizer daqueles que já não podem ler as letrinhas miúdas com facilidade, as mãos já não tão fortes para abrir uma embalagem e menos paciência para permanecer horas em um supermercado? Sim, nas gôndolas do supermercado ainda encontramos dificuldade em atender esse público que tanto precisa de mais cuidado e segurança na escolha de um alimento ou material de serviço. Nesses casos, onde o idoso deixa de comprar um produto devido à embalagem, temos um impacto em toda a cadeia de produção, talvez o produto pudesse ser de boa qualidade, mas acaba perdendo na acessibilidade, não se mostrando eficazes as promessas oferecidas pelo fabricante ao se consumir esse alimento.

O mercado consumidor brasileiro, assim como o mundial, apresenta-se progressivamente diversificado. Se antes os produtos poderiam servir a quase todos, ou eram produzidos para atender a uma ampla gama de consumidores, agora procuram adequar-se a consumidores com diferentes características e necessidades, com hábitos novos ou únicos, com variadas crenças, que buscam qualidade e diferenciação. Trata-se de um mercado composto por consumidores cada vez mais exigentes e cientes de seus direitos, o que leva as indústrias a buscarem desenvolver produtos e serviços que atendam sistematicamente a tais especificidades. Um público-alvo que exemplifica esse cenário é o composto por pessoas com mais de 60 anos de idade, o qual representa cerca de 8% da população brasileira (IBGE, 2010) e demonstra estar em acentuado crescimento demográfico (MOURA, 2017).

Moschis (2003) defende que produtos que consideram as características valorizadas pelo público-alvo têm mais chance de ganhar competitividade. No caso dos idosos, segundo seu estudo, os atributos valorizados são conveniência, funcionalidade, qualidade, credibilidade e serviço personalizado, os quais deveriam ser aplicados na criação e na renovação de produtos, bem como na comunicação. E, também, para o idoso, o ato de ir ao supermercado ou de fazer compras significa mais do que adquirir produtos: corresponde a um momento de ocupação de seu tempo, de autonomia, de interação social, sendo considerado pelos próprios idosos como uma situação de lazer (STREHLAU; BACHA; LORA, 2006).

O desenvolvimento de uma embalagem engloba parâmetros técnicos, legais, conceituais, estratégicos e estéticos, e nenhum deles resulta eficaz se não for projetado tendo em vista uma comunicação clara e precisa para quem faz a escolha e a compra. Atualmente, não são encontradas diretrizes legais ou de projeto que definam parâmetros a serem utilizados em embalagens, tendo como foco o respeito ao público consumidor idoso. Caso venham a ser criados, considerando as características e necessidades dessa população, podem vir a resultar em uma ferramenta competitiva para as indústrias de bens de consumo e ajudar a garantir maior acessibilidade no momento da escolha, da compra e do uso de produtos, assim contribuindo para o prolongamento de uma vida social mais ativa, autônoma e respeitável para o público idoso (MOURA, 2017).

Referência Bibliográfica:

MOSCHIS, G. P. Marketing to older adults: an updated overview of present knowledge and practice. Journal of Consumer Marketing, v. 20, n. 6, p. 516-525, 2003.

STREHLAU, V. I.; BACHA, M. L.; LORA, M. I. Idosos não são iguais: uma análise de agrupamentos sobre as atividades de lazer da terceira idade. ENCONTRO DE MARKETING DA ANPAD, 2., 2006, Rio de Janeiro. Anais II Rio de Janeiro: ANPAD, 2006.

IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Censo 2010. 2010. Disponível em: . Acesso em: 6 jan. 2017.

MOURA. O idoso e a embalagem: premissas de projeto gráfico. Mestrado porfissional em comportamento do consumidor, MPCC, ESPM. Disponível em: http://www2.espm.br/sites/default/files/pagina/claudia_weber_moura.pdf. São Paulo, 2017. Acesso em: 23 fev. 2017.

Mariana de Athayde

Mariana de Athayde

Engenheira de Alimentos, graduada com duplo diploma na FZEA-USP e ONIRIS (França). Convidada especial no Blog Geratividade.

Contato: mariana.deathayde00@gmail.com

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