Sobre esquecer e nossa vontade de sempre lembrar


Esses dias eu estava assistindo a uma série que acabou sendo cancelada. Ela falava sobre uma moça que possuía uma síndrome rara, intitulada na ciência como "Highly Superior Autobiographical Memory" (HSAM), aqui no Brasil, traduzida como Memória Autobiográfica Altamente Superior. Tal habilidade é explicada como a capacidade de quem a possui, de não se esquecer de nada do que viveu, relembrando fatos desde sua infância, até os detalhes das refeições. O seriado intitulado "Unforgettable", traduzindo literalmente como "Inesquecível", trata do uso dessa habilidade de não se esquecer de nada de uma policial, que faz uso dessa sua capacidade para ajudar a solucionar crimes complexos. Resolvi ir atrás de ler mais a respeito de tal síndrome. Em um dos artigos científicos, os autores falam que, atualmente, existem cerca de 100 pessoas no mundo que foram diagnosticadas com tal habilidade. E então reportaram acerca das vantagens e desvantagens de não se esquecer de nada. Em uma reportagem feita com uma americana portadora da síndrome, esta relata se lembrar de todos os seus aniversários e de como se sentia em cada um deles, inclusive, falando sobre relembrar sonhos e pesadelos que tinha quando criança e como ao recordar-se destes, recordava-se também dos sentimentos terríveis que alguns deles lhe proporcionavam e como ela não conseguia explicar, ou traduzir tais sentimentos, já que sua vivência era de um bebê, em alguns deles.

De outro lado, ao envelhecermos, é muito comum nos darmos conta do quanto vamos nos esquecendo com mais facilidade de alguns fatos ou eventos. Os estudos mostrando sobre o crescimento de nossa população apontam que atualmente, assim como a perspectiva futura, é de que tenhamos cada vez mais, mais idosos em nosso país, o que significa que teremos mais gente idosa convivendo por mais tempo. O que isso significa? Que provavelmente, doenças que antes não eram diagnosticadas, possam ser diagnosticadas cada vez mais - já que muito provavelmente, as pessoas morriam antes de desenvolver algumas delas. Vivendo mais, maiores as chances de desenvolver novas doenças, já que o corpo está "aguentando" mais tempo. Mas o que isso tem a ver com a tal síndrome que falei? Ora, no consultório e no dia a dia, o que escutamos, ao conviver com pessoas idosas, são as queixas de esquecimento. Muitas vezes, com um nível de preocupação altíssimo no que diz respeito a questões da rotina que começaram a não funcionar tão bem quanto antes.

Outros pesquisadores foram verificar quando de fato nosso corpo começa o processo de "envelhecimento" e descobriram que aos 27 anos é quando começamos a envelhecer. Sim, parece assustador, mas devemos entender que nosso corpo não é uma máquina, mas sim um corpo biológico, com data de validade. Claro que com 27 anos, não conseguimos observar esse declínio, que acaba aparecendo mesmo, com nossos 50, 60 anos. E, como alguns costumam brincar, a queda é livre...

Nossa memória, de maneira geral, é programada para guardar algumas informações e deletar outras que vai considerando não ser importante. Se em determinadas fases de nosso desenvolvimento, acabamos sendo capazes de guardar bastante informação, seja estudando, fazendo cursos, colocando "a cabeça para pensar", vamos formando o que ficou conhecido como nossa "reserva cognitiva", que funcionaria como uma espécie de reserva do cérebro - uma "poupança" para ele. O que acaba acontecendo é que, ao envelhecermos, aposentamos e diminuímos drasticamente nossas atividades e compromissos diários. Nosso cérebro também precisa de malhação para continuar funcionando bem. Ao diminuir as atividades, diminuímos as exigências rotineiras e começamos a nos preocupar por acabar esquecendo algumas coisas. O inverso acontece quando, em determinados momentos que nos sobrecarregamos (e isso em qualquer idade!) e acabamos esquecendo muito mais coisas do que em condições normais, esqueceríamos.

Ao envelhecer, nosso cérebro vai funcionando, aos poucos, cada vez mais devagar. Não podemos exigir dele que funcione como funcionava quando estávamos aos 20 ou 30 anos, fazendo faculdade, pós graduação, trabalhando, cuidando de filhos e etc. Nosso cérebro era outro, assim como as demandas da vida. Diminuir as rotinas quando envelhecemos, também é necessário, para respeitar esse novo momento da vida. Nos darmos conta de que precisamos diminuir, mas não parar, também. E, assim, precisamos compreender que alguns esquecimentos, são normais e possíveis de acontecerem. No geral, eles não vão atrapalhar a rotina de uma maneira drástica. Quando começamos a perder compromissos, esquecer contas, devemos sim, ligar o sinal de alerta. Esquecer um aniversário, querer lembrar de tudo o que fez ontem e o motivo de não ter conseguido de maneira alguma dar conta dos mesmos compromissos de antes. Estar atento e respeitar nosso tempo é fundamental, para que possamos melhorar nossa qualidade de vida. Se antes era possível guardar tudo na cabeça e gerenciar assim, que bom. Com o passar do tempo, talvez a gente precise se adaptar às novas demandas. Isso envolve criar álbuns de fotos, para nos lembrarmos de alguns eventos (que são mais ainda do que quando éramos jovens, né?), começar a usar agenda, calendário na geladeira, lembretes no celular, para que os novos compromissos sejam cumpridos. Antes a gente até podia lembrar de toda a lista de compras, mas agora, qual o problema da gente escrever tudo em um papel para poder se lembrar dos encontros com aqueles amigos queridos?

Esquecer, por mais sofrido que seja em determinados momentos, também faz parte do nosso viver. É necessário abrir espaço e deixar que novas memórias possam chegar. Carregar os bons e maus momentos o tempo todo conosco, acaba sendo também, muito sofrido, afinal, acaba nos levando a reviver emocionalmente tudo o que não conseguimos processar de determinadas vivências. Compreender que muitas vezes alguns rostos, encontros, pessoas irão embora de nossa memória, não significa que elas serão apagadas de nossa história. Tais experiências e vivências com essas pessoas também ajudaram a nos reconstruir em determinado momento. E as experiências, ainda que não possamos nos lembrar exatamente, seguirão conosco. Que para esse novo ano que finalmente começou, a gente possa cuidar das nossas memórias, seja guardando na cabeça, seja por meio de fotos, diários, registros do tempo. Para que, mesmo que não guardemos tudo dentro da cabeça, possamos revisitar tais achados nesses registros externos. Afinal, as histórias e as fotos estarão conosco para sempre em nossa história.


CAMILLA MONTI OLIVEIRA Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês. cmontioli@gmail.com

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