A importância de se descansar


Alguns vários estudos têm sido publicados nos últimos tempos, falando sobre a importância de se estar à toa. Sim, pode parecer estranho ou mesmo inimaginável para algumas pessoas, pensar isso. Mas o que vem acontecendo é que nós, seres humanos, temos criado cada vez mais recursos para nos distrairmos e, com isso, esquecemos a importância de estarmos à toa. Mas Camilla, por que escrever sobre isso, logo agora? Bom, aproveitando que entramos aqui de recesso de férias, assim como a maioria das pessoas acaba aproveitando o mês de janeiro, fevereiro e carnaval emendando esse período com férias escolares ou familiares, pensei de aproveitar e também sugerir a proposta para vocês a respeito do ócio: sim, a ideia de ficar à toa. Não vale escolher um novo seriado, não vale escolher novos programas, um novo jogo do celular. O que vale é exatamente ficar à toa: aproveitar esse momento para dar um descanso ao nosso cérebro. Ao invés de se encher de atividades, programas, passeios, coisas para arrumar em casa, etc, que tal se dar alguns dias para não ter programação? Não ter hora para fazer tudo atropelado?

Todos os dias somos bombardeados com informações de todos os tipos: seja através das redes sociais, dos celulares, televisão, a respeito de informações e mais informações. As notícias chegam em tempo real e, enquanto acordados, teremos sempre algum estímulo nos chamando a atenção. O que se tem descoberto é que os momentos em que deixamos nosso cérebro no que é considerado modo “default”, parecido com quando desligamos a televisão, mas aquela luz continua ligada. Esse modo default é compreendido como aquele momento em que deixamos nosso cérebro e as ideias se dispersarem, sem rumo, sem foco ou sem a necessidade de se pensar ativamente sobre algo. A importância desse modo “default” tem sido compreendida como a possibilidade de nosso cérebro descansar, ainda que acordado, dos estímulos a que o colocamos todos os dias.

Esse mesmo modo precisa funcionar quando estudamos ou nos focamos em algo ou algum problema. Quando ficamos muito tempo pensando em determinado assunto, é como se nosso cérebro gastasse todas as energias tentando resolvê-lo. Quantas vezes já não aconteceu com você de, não sabendo mais o que fazer ou pensar, deixou de pensar naquilo e então, quase que como mágica, a solução apareceu? Ou então você conseguiu voltar ao que estava fazendo e conseguiu realizar como se não tivesse com tanta dificuldade anteriormente? Isso acontece quando oferecemos ao nosso cérebro a oportunidade de “respirar” em meio ao estresse gerado por determinado problema. Alguns estudiosos americanos costumam dividir como modo focado (quando estamos ali pensando, nos esforçando com o problema) e modo difuso (quando então deixamos nosso pensamento livre, sem necessariamente focarmos nossa atenção em algo que exija tanto pensamento).

Uma maneira que tem sido encontrada e buscada por diferentes pessoas, é a atividade física: não aquela supervisionada, com objetivos, etc, mas aquela mais livre de exigências, como a caminhada, corrida ou algo que nos permita, enquanto a realizamos, deixar nossa mente divagar e não se preocupar direta e objetivamente com nada. Outras pessoas têm procurado a yoga ou meditação. Claro, não é a atividade física que vai te fazer “curtir” um ócio, mas a possibilidade desta em te fornecer um intervalo onde você se permita, ainda que minimamente descansar e tentar não pensar em nada tão objetivamente. Trocar, apenas por trocar, uma atividade ocupacional que te gere cobranças ou outra de igual equivalência, de nada adianta também.

Ora, mas será que na correria do dia a dia, a gente conseguiria ter sempre esse momento para descansar a cabeça? Não acho que seja uma tarefa fácil e, mesmo eu, enquanto escrevo para vocês, fico aqui pensando como eu poderia incluir em minha rotina, momentos em que eu possa me permitir não fazer nada, para oferecer ao nosso cérebro, esses pequenos e necessários intervalos de descanso.

Para começar, que tal se permitir desgrudar um pouco do celular a todo momento? Ao chegar em um local onde você precisa esperar por algo, ao invés de automaticamente pegar o celular para checar as redes sociais, deixa-lo desligado enquanto espera? Que tal criar, nem que seja por meia hora em sua rotina, a “hora do não fazer nada”? Ou então aproveitar o clima do descanso e das férias, e tirar um dia ou dois para diminuir o ritmo e fazer apenas o necessário? Se permitir uma caminhada sem pressa de voltar ou necessidade de olhar para o relógio? Planejar uma viagem ou um passeio no parque, onde a meta seja nada além de sentar e aproveitar o momento? Se acompanhado, de colocar a conversa em dia, se sozinho, de poder refletir mais sobre você? Se, ao deitar, ao invés de ficar mexendo no computador ou celular até o sono chegar, você simplesmente se deite e espere o sono chegar?

Diminuir o ritmo de informações no nosso cérebro pode contribuir para uma melhor qualidade de vida e longevidade para ele, já que, ao permitirmos que ele pare de funcionar tão pesadamente, estamos oferecendo também a possibilidade de manutenção dos neurônios, melhor qualidade do sono e, consequentemente, maior oxigenação e recursos para que o cérebro renove seus neurônios enquanto você descansa. Quando a gente permite e oferece essas pausas, como comentei, oferecemos a possibilidade de deixar nossa mente divagar, pensar sobre outros assuntos já esquecidos ou até mesmo não pensar em nada.

Voltar ao ócio, ao nos permitirmos momentos em que não estamos ocupados com nada, pode, a princípio, parecer uma loucura em nossos dias atuais, quando somos cobrados – vai saber por quem – a todo momento de estar fazendo algo produtivo. Mas os estudos e os neurocientistas estão aí para nos mostrar que não fazer nada, também é uma maneira de fazer algo por nós mesmos. Então que tal se permitir, aos poucos, fazer nada para fazer mais por você?


CAMILLA MONTI OLIVEIRA

Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês.

cmontioli@gmail.com

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