Sobre novos anos, planos, promessas e reais possibilidades


Nesse mês de novembro, já começaram a tocar as músicas da Simone que nos lembram “Então é natal e o que você fez?” e as pessoas começam a analisar seu ano, se questionar a respeito daquele temido – ou não – balanço do ano. Como se a gente estivesse em uma corrida sem fim onde quanto maior a produtividade, maior as conquistas. Vocês já repararam o quanto somos cobrados e nos cobramos sobre isso? Sobre TER de fazer um balanço, sobre TER de emagrecer, TER de fazer atividade física. Principalmente quando o novo ano se inicia, né? Como se mudar de ano fizesse a gente mudar de vida. E aí, claro, chegando as comemorações de final de ano, todo mundo aproveita pra fazer jus à expressão “enfiar o pé na jaca”, afinal, dia 2 de janeiro, começaremos as dietas, a deixar o sono em dia, começaremos a alimentação saudável e mudaremos de vida. Quem nunca soltou aquela famosa frase: “Ano novo, vida nova.”? O que a gente esquece em todas essas propostas, é de olhar para dentro, para o principal agente dessa mudança. Nós mesmos. De nada adianta mudar para fora, se a mudança não começa de dentro. Eu sei, parece clichê, mas a neurociência vem também mostrando isso para nós. Alguns estudos realizados ao redor do mundo, indicam que, para qualquer novo hábito, para que a gente de fato incorpore ele em nossa rotina, precisa ser praticado ininterruptamente por no mínimo 21 dias. Eu sei, ininterruptamente. Parece difícil, não? Depende. Por que a neurociência também nos mostra que nosso cérebro costuma gostar do que ele já conhece. Então, em um primeiro momento, se a gente se dispõe a mudar, nosso cérebro vai também dizer: “ah, mas você tem certeza?” e é nesse momento que precisamos ensiná-lo a se reprogramar. E aí entramos em um ciclo de mudanças onde uma mudança leva a outra que leva a outra e por aí vai. Se é fácil? Nem sempre. Sabe o melhor e, ao mesmo tempo, pior exemplo disso? Quando temos um horário de acordar durante a semana e, ao entrarmos de férias, ou até mesmo quando chega o final de semana e falamos “nossa, vou dormir até mais tarde hoje” e acabamos acordando no mesmo horário de sempre? Isso é seu cérebro te dizendo que já está acostumado ao hábito de acordar todos os dias no mesmo horário. É como se ele dissesse: “ei, eu já sei que é esse o horário de acordar, como assim você não quer fazer isso? Você me acostumou!”. Então, já que você está aqui pensando nessas mudanças e decidido que mudar é preciso e você quer aproveitar o ano novo para, não sei, comer melhor, praticar alguma atividade física, ser mais organizado, finalmente juntar aquele dinheiro para viajar? Que tal então colocar para você que comece aos poucos? Se nós ficamos apenas pensando em tudo o que queremos, nosso cérebro entra em um pequeno curto circuito, tentando administrar todas essas coisas e às vezes se esquece. Não é frescura nenhuma ter uma agenda, um quadro em casa, uma folha colada na parede do quarto, banheiro ou na mesa de trabalho, com as nossas metas escritas. A ciência já mostrou que quando escrevemos o que queremos e deixamos onde possamos ver, fica mais fácil da gente não se esquecer do que queremos. Não precisamos ficar resgatando na memória, porque ele já está ali, visível ao nossos olhos. Primeiro passo, então: escreva tudo o que você quer. Tudo mesmo, inclusive aquela bobeira que você diz ser bobeira. Se você quer, não é bobeira! O segundo passo é a gente poder dividir essas grandes metas, de acordo com seu tempo. Lembram quando falei que nosso cérebro costuma não gostar de mudanças? Pois é. Para que algumas sejam efetivas, aquele trecho do poema da Clarice Lispector faz muito sentido: “Mude, mas mude devagar, por que a direção é mais importante do que a velocidade”. Ou seja, não é apenas sobre querer mudar tudo de uma vez, mas “reprogramar” nosso cérebro para que essas mudanças ocorram de maneira mais realista. E, mais um fato: nosso cérebro também gosta de recompensas a curto prazo. Então se a gente coloca uma meta muito exigente, como perder 20 kg, ele entende como algo muito mais difícil de ser realizado. Mas se conseguimos dividir esses 20kg em pequenas metas e atividades, conseguimos mostrar ao nosso cérebro que, sim, estamos conseguindo recompensas aos poucos também. Então se dividirmos essa meta em, por exemplo, em perder 2kg por mês, ela já fica muito mais fácil e motivadora do que se pensarmos “nossa ainda tenho 20kg para perder!”. E, ao conquistarmos algo, ficaremos mais satisfeitos conosco. Um aplicativo, caso você fale inglês que pode ajudar a ir estabelecendo algumas pequenas metas que podemos transformar em hábitos é o Fabulous. Ele está disponível tanto para IOS quanto Android e ajuda a ir te colocando e organizando pequenas metas. E claro, não adianta que a gente estabeleça grandes mudanças. O ideal é que a gente liste tudo e decida por onde começar. E a ideia é que seja algo simples e possível. Quer começar a academia? Então se coloque primeiro, a meta de estabelecer um horário para realizar aquela atividade e, salvo emergências, não mude esse horário por nada. Descubra o horário que te ajuda mais. Os estudos mostram que, pela manhã, costuma funcionar melhor, pois as pessoas já ficam mais dispostas. Se você ainda está sem dinheiro para pagar uma academia, então se proponha a acordar uma hora mais cedo do seu horário de trabalhar e vá fazer uma caminhada pelo seu bairro. Se meia hora é muito, então estabeleça meia hora. O ideal é estabelecer uma pequena meta, que pode ser mudada a medida que você vá conquistando e melhorando aquele hábito e, claro, faça desse novo hábito algo diário, por pelo menos 21 dias direto. Assim, seu corpo e seu cérebro vão começar a entender que naquele horário é o seu momento de realizar determinada atividade. Assim, mudar é possível, independente da época do ano. E o principal fator dessa mudança tem de ser sempre o indivíduo que quer mudar. Mudar depende da gente querer e começar de maneira realista, um passo de cada vez. Se você acha que tem muitas mudanças a serem feitas e não consegue sozinho, saiba que não há nenhum problema em procurar ajuda profissional para isso também. Existem excelentes psicólogos, terapeutas ocupacionais que podem te ajudar. E, claro, não precisa esperar o ano novo. Pode começar agora se quiser. Que tal começar, por exemplo, combinando com você mesmo que vai tomar mais água por dia? Parece bobo, mas seu cérebro já entende como um primeiro passo e, quando ele perceber que você conseguiu, já vai ficar muito mais metido se achando o rei da mudança e, consequentemente, te dizendo: “vamos lá, quero mudar mais e me sentir mais confiante”.

CAMILLA MONTI OLIVEIRA

Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês.

cmontioli@gmail.com


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