Do que serve um psicólogo? E para que serve a psicoterapia?


Pensando em tantas dúvidas que tem me chegado, assim como para aproveitar que no dia 27 de agosto foi comemorado o dia do Psicólogo, data em que a profissão foi oficialmente validada aqui no Brasil, resolvi escrever sobre o que somos mais “famosos” em trabalhar. Temos muito o que comemorar? Sim. Temos muito o que caminhar? Sim também.

Quando as pessoas pensam em psicólogos, logo já imaginam o tal do Freud, seu divã e apenas pessoas “reclamando” ou desabafando sobre seus problemas. Essa é a visão mais comum que temos do que faz um psicólogo e ela não está errada. Porém ela é uma, apenas uma forma de atuação, dentre tantas as que um psicólogo pode atuar.

Um psicólogo pode trabalhar em escolas, orientando e cuidando de questões escolares; pode trabalhar em empresas, atuando com recrutamento, processos seletivos e treinamento dos funcionários; pode atuar em hospitais públicos e privados, atendendo aos pacientes e seus familiares; pode atuar na atenção ou saúde pública, na assistência social, em postos de saúde e centros especializados de doenças e pode, também, atuar no consultório, com diferentes tipos de trabalho, como por exemplo, avaliação neuropsicológica, psicoterapia, reabilitação, estimulação cognitiva, orientação de pais, terapia para crianças e orientação profissional ou de carreira.

Como aqui a maior demanda que recebemos é de pacientes que chegaram ou para avaliação ou procurando um psicólogo, vou colocar algumas informações que sempre me perguntam, ou que as pessoas tem vergonha de perguntar quando chegam no psicólogo em busca de psicoterapia.

Vou falar um pouco da perspectiva de consultório particular e minha experiência então. Pode ser que, ao procurar um psicólogo, você se identifique com ele, vejam que houve sintonia entre o jeito dele de trabalhar e o seu jeito e consigam realizar um bom trabalho juntos. Pode ser que isso não aconteça de primeira e, então, você não é obrigado a permanecer com ele. A aliança e o vínculo entre vocês é o mais importante. Assim como diversos relacionamentos que desenvolvemos ao longo da vida, é necessário que a gente possa se sentir aceito e respeitado dentro do espaço terapêutico.

“Mas o psicólogo pode sair contando por aí o que eu disse para ele?” Salvo raras exceções, como quando você pensou em suicídio, em se machucar ou machucar alguém, o psicólogo é proibido, pelo código de ética, de divulgar qualquer informação a seu respeito, para qualquer pessoa. “Ah, mas já ouvi falar de psicólogo que contou uma história de paciente dele” Bom, então fuja desse profissional e, caso você se sinta exposto, você pode procurar o Conselho Regional de Psicologia de sua região e abrir uma denúncia contra esse profissional. O código de ética profissional é muito rígido no que diz respeito ao cuidado que nós psicólogos devemos ter com quem nos procura. É necessário criar um ambiente acolhedor e seguro, onde nossos maiores medos, angústias, alegrias e receios, possam aparecer. E, para isso, precisamos confiar no profissional que está ali com a gente.

“Me falaram que a abordagem é fundamental. Minha amiga disse que apenas tal abordagem é que funciona.” E o que seria essa tal de abordagem? Na minha cabeça, ao pensar em abordagens, penso da seguinte maneira: Existe o ponto A onde estamos agora e o ponto B, local no qual queremos chegar. Se a gente puder pensar em dois pontos no mapa, poderíamos escolher alguns caminhos que nos levariam do ponto A até o ponto B. Alguns são mais conhecidos, outros não, outros já ouvimos falar mais, outros, menos. Mas são todos, possibilidades. A abordagem, dentro da psicoterapia, seriam esses caminhos, que nos propiciam a possibilidade de atravessar de onde estamos, para onde podemos/queremos chegar. De minha experiência, até mesmo conversando com outros profissionais, de acordo com o “Instituto de pesquisas Camilla e colegas conversados” (é brincadeira, ok? Não tenho esse instituto não!), muito mais importante do que a abordagem, é o vínculo entre o profissional e o paciente. Se você se sente seguro e confia no trabalho do profissional, aí sim será possível que você consiga adentrar em um processo terapêutico que de fato vai ajudar. Se você quer saber a abordagem do profissional, você deve se sentir à vontade com ele para perguntar. Afinal, já vai se abrir ali de tantas maneiras, qual o problema em perder mais essa “vergonha”?

“Mas como saber se o profissional é o adequado e habilitado?” Todo psicólogo, para atuar enquanto tal, deve ser registrado no Conselho Regional de Psicologia (CRP) de sua região. Todos os conselhos regionais estão subordinados e respondem ao Conselho Federal de Psicologia (CFP). Para atuar, é necessário que o psicólogo pague uma taxa anual e mantenha seu registro em dia. Todo site de Conselho possui um local para verificar se o psicólogo está inscrito e habilitado para atuar enquanto tal. Se você está na dúvida do profissional que encontrou, verifique no site da sua região, se ele está inscrito.

“O psicólogo vai me dizer o que fazer da vida?” Muito provavelmente, não, afinal, é a sua vida. Nesse ponto, quando as pessoas me perguntam, sempre ficam decepcionadas. “Mas eu achei que o psicólogo soubesse o que a gente tem que fazer!”. Nenhum psicólogo tem a resposta para todos os problemas das pessoas que o procuram. “Então você não diz o que fazer?” Não. Bom seria, né? Ter alguém te dizendo quais os passos que você deve tomar para que as coisas se ajeitem. Mas aí, já parou para pensar no seguinte: se der errado, a culpa de tal decisão é de quem? “Ah, do psicólogo que me mandou fazer aquilo”. E se der certo? Também dele. Mas me diga, caso dê errado, acredito que você ficaria muito bravo com ele ou ela, não? Eu ficaria. Tal questão também abre uma outra perspectiva: a de que o psicólogo, ao não saber, te faz um belo convite para pensar naquela decisão, nos prós, nos contras, no que você ganharia e perderia. E, caso desse certo, a vitória seria de quem? Sua, apenas. O psicólogo afinal, te ajudou a pensar, mas todo o louro, foi seu! E não é bom quando a gente toma uma decisão e as coisas dão certo?

Nem sempre a busca por um psicoterapeuta é fácil. Nem sempre também é possível arcar com as despesas de um seguimento particular. Caso você não tenha, neste momento, dinheiro para arcar com os custos de um acompanhamento particular, você pode procurar alguns institutos que oferecem formação aos psicólogos já formados, estes locais geralmente oferecem atendimentos chamados de “sociais”, a preços reduzidos, para que mais pessoas consigam arcar com o seu tratamento. As universidades onde existem cursos de psicologia também costumam oferecer atendimento gratuito ou com preço reduzido, o que também pode ser de grande ajuda ao se pensar em como começar.

“Mas eu vou chorar sempre? E ter de falar de coisas tristes?” Não. A maioria dos profissionais vai trabalhar com o que você trouxer. Nem sempre você está disponível para falar do que te dói. Respeite isso também. Falar de outros assuntos também pode te trazer outros olhares até para o que estava doendo e você não sabia. Agora, se você me disser que é lindo e que adora ir na terapia, também ficarei preocupada. E posso dizer tanto quanto psicóloga como paciente, que não são só flores, nem só longos invernos. Tem dias que você vai sair leve, outros dias que vai querer nunca mais voltar ali – mas volta na semana seguinte se dando conta do quanto foi intenso, dolorido, mas necessário. Tem dias que serão de lágrimas, outros de longas risadas. De querer nunca mais ver seu terapeuta, até a próxima semana, quando então vai querer não imaginar sua vida sem ele.

A psicoterapia não é para sempre. Ela deve ser necessária enquanto lhe ajudar. Pode ser por um problema pontual, pode ser por vários problemas. Pode não ser por problema nenhum, apenas para você se conhecer. Não é necessário estar doente ou ter diagnóstico. O primordial é a vontade de se conhecer. Ao olhar para trás, após um tempo em psicoterapia, você vai ser capaz de perceber que, assim como os caminhos e estações do ano, houveram bons e maus momentos e que, através deles, você pode se conhecer e se aceitar melhor. Se dar conta do que temos de bom e de ruim, nos faz mais próximos e humanos com a gente mesmo. Não é fácil, mas o caminhar, esse vale a pena.


CAMILLA MONTI OLIVEIRA

Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês.

cmontioli@gmail.com

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