Sobre a coragem de se arriscar e envelhecer


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Hoje peço licença poética às autoras do blog Geratividade, dos nossos autores e leitores, principalmente aos escritores profissionais, mas me permiti brincar um pouco com as palavras, para falar sobre coragem. Há pouco mais de um ano, acompanhei à distância esse projeto nascer e ir engatinhando. Ironia da vida, mas até para falarmos de envelhecer, precisamos falar sobre o nascer, não é? Por que falar da vida, em todas as suas fases, é compreender que uma não é possível se existir sem a outra. Não dá para ser um bebê, se não tivermos alguém para cuidar. Não dá para envelhecer, se não tivermos a oportunidade de dividir nossos aprendizados com os mais jovens – precisamos dessas diferentes fases, para que a gente valide nossa experiência. E no meio de tantos lugares, possibilidades e validações de quem somos, elas chegaram para somar e encantar as experiências. Olhar para si, enquanto “Novas profissionais”, através do lugar de quem quer cuidar e poder olhar para as “velhas experiências”. Nesse caos econômico e político que vivemos, empreender se tornou um ato de coragem. Se dispor a ajudar os outros, a correr atrás de seu dinheiro, fazer sonhar e fazer o sonho virar realidade, um ato enorme de coragem. Parece simples, mas nunca é. Botar a cara a tapa, descobrir mídias sociais, encontrar parcerias confiáveis, montar seu negócio e, ainda nesse meio, se dispor a ajudar quem não tem condições, oferecendo serviços simples, mas essenciais, é ter muita, muita coragem. Mas além de coragem, vou falar que é também ter ou saber buscar, sabedoria. Como pessoas tão “jovens”, consideradas inexperientes, tem conseguido um resultado tão ímpar? Olhando daqui de longe, com esse olhar arregalado de admiração, junto com um misto de “quero ser assim quando eu crescer”, eu vejo o quanto a formação dessas profissionais, influenciou diretamente em seu aprendizado. E não falo apenas da formação acadêmica, mas também da formação pessoal. Elas, quando andam juntas, nos permitem ir além do esperado. Abre um caminho que não tem muito da onde voltar depois. Ao olhar esse caminho, ler tanto sobre geração Y, Z, gerações que cada vez mais são encaradas como as gerações que não olham para trás, apenas para frente, vejo o quanto a Geratividade conseguiu a sabedoria de buscar o que tanto foi atrás de estudar e transpassou, de uma maneira incrível e leve, a barreira entre a teoria e a prática. Me explico: se dispor a estudar um tema geralmente envolve você se debruçar sobre ele e compreender esse fenômeno todo, da melhor e mais completa maneira. Ao se falar do envelhecer, vai desde o declínio esperado para a idade, às mudanças físicas, cognitivas e emocionais. Não é pouco. A coragem e audácia se encontram com a sabedoria quando o sentido para o que se faz vem de dentro: não é apenas o repassar o conteúdo, o se trabalhar com pessoas, mas a disponibilidade do olhar de cada profissional envolvido, a compreender, se colocando no lugar do outro, como é possível cuidar a partir do olhar do outro: o integrar o seu conhecimento, com o que quem chega, te traz, para construir junto, os sentidos. Olhar nossa sociedade atual, é ver o quanto acabamos valorizando o ser jovem, o não ter cabelos brancos, “saber tudo”, acompanhar as mudanças na velocidade da luz, sair correndo para três compromissos, dos quais quatro você já está atrasado porque afinal a vida moderna é correr, né? (ufa! Pausa para respirar). Daí me chegam essas duas e dizem: vamos olhar diferente? Vamos olhar o envelhecer – seja ele saudável ou não? A possibilidade de se compreender que cuidar é respeitar o outro em sua individualidade, é algo que os profissionais da saúde acabam se esquecendo. Mas esse novo lugar, me mostra que ainda não perdemos e precisamos sim, desse frescor do olhar, misturado com a experiência de quem “chegou lá” : a coragem mesmo, de se juntar a teoria, a experiência e o ouvido atento para se cuidar. Aliar o que se sabe, com quem está vivendo a experiência é a melhor forma de se construir algo único e genuíno. Olhando a cada texto que fui escrevendo até agora, participando de algumas reuniões e discussões, oficinas e atividades com elas, me vi pensando e repensando: a gente associa tanto envelhecer com ficar doente, que acaba não olhando mais o que é natural nesse caminho. Em cada encontro e conversa, eu me vi olhando diferente, de novo: olhar que sim, podemos encarar o envelhecer com suavidade. Compreender que envelhecer não é sinônimo único de perder, mas de reconhecer que até perder, tem seu valor. São os detalhes, o cuidar, que envolve a coragem: precisa de muita, para estar disponível para o outro, para convidá-lo a contribuir com essa novidade e, principalmente, a querer construir e viver o envelhecer como algo natural: não só das perdas inerentes, mas dos ganhos por ter vivido, adaptando essa nossa vida corrida, com a tranquilidade de quem sabe que o tempo já não nos pertence como já foi – que a hora de correr, pode mudar e que, mesmo no caos, é preciso parar e cuidar da gente a qualquer tempo. Que a gente possa envelhecer de maneira a valorizar esse nosso lugar: dos ganhos que só temos nesse processo. Geratividade é ainda um bebê. Mas vem sendo cuidado e compartilhado com quem mais sabe do assunto: quem já viveu para aprender e está disposto a compartilhar. Que possamos continuar envelhecendo, que a gente possa se orgulhar de cada ruga, cada erro, cada aprendizado, cada perda e cada ganho. Por que a experiência, esta vem sendo compartilhada da mais rica maneira. E eu espero poder continuar envelhecendo com vocês.


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CAMILLA MONTI OLIVEIRA

Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês.

cmontioli@gmail.com

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