Como vai sua reserva cognitiva?


Já ouviu falar sobre ela? Os pesquisadores que trabalham com o adoecimento e envelhecimento de idosos, tanto de pessoas saudáveis quanto de pessoas com algum quadro demencial, começaram a investigar em seus trabalhos, o que levava alguns idosos, já com quadros demenciais instalados a demorarem mais tempo nas perdas de memória, com outros com os mesmos sintomas. Uma das possibilidades levantadas por eles, referiu-se ao que eles chamaram de reserva cognitiva. Mas afinal, o que seria ela?

A definição da reserva cognitiva vem no sentido de sua escrita mesmo: como uma reserva, ou um estoque que podemos fazer em nossos cérebros, para que tenhamos mais recursos para quando chegarmos na terceira idade. De certa maneira, seria como guardar comida na dispensa de casa, pra poder usar quando não tiver mais como comprar. Assim, quanto mais comida se estoca, maior seria a quantidade dela, quando não se tiver mais como comprar mais mantimentos guardados.

Quando falamos de adoecimento em idosos, já pensamos em como podemos fazer para evitar que as demências venham a se instalar. Assim como conversamos a respeito do uso de jogos no nosso último texto, a ideia é que a gente possa pensar que outras maneiras acabamos por influenciar um maior ou menor risco no desenvolvimento de doenças e, nisso é que chega a ideia de reserva cognitiva.

Mas então, como podemos fazer?

O que já sabemos, até o presente momento, é que a reserva não ocorre simplesmente de um único modo, mas existem diversas influências que podem contribuir para que ela possa “crescer”. E fazer a reserva crescer, é algo que podemos começar desde jovens. Aliás, como quase tudo na vida, é quando jovens que precisamos investir no cuidado com nosso corpo de maneira total, né? Mas em se tratando do nosso cérebro, também. Os principais indicadores avaliados pertencentes à reserva cognitiva envolvem:

  • o tempo de estudos: não necessariamente o fazer faculdade, mas o quanto tempo a pessoa passou ou continuou estudando ( seja curso técnico, faculdade, mestrado, doutorado, especialização, etc). Quanto mais informações colocamos, mais colocamos nosso cérebro para trabalhar.

  • o lazer: envolve desde atividades de prazer quando jovem, mas a continuidade dessas atividades quando envelhecemos. Nesse aspecto, o mais comum é que, ao se aposentar, as pessoas deixam de sair com tanta frequência, de visitar os amigos ou realizar pequenas atividades que faziam antes e, que, com o passar do tempo e distanciamento dos amigos, se perdem.

  • a prática de atividade física: praticar atividade física ajuda nosso sono a ser melhor, já que libera mais neurotransmissores no nosso cérebro. A atividade física, seja ela qual for (dança, academia, natação, caminhada, algo que você goste de fazer), também vai ajudar a oxigenar melhor o cérebro, fazendo com que ele melhore a qualidade do seu funcionamento.

  • alimentação: a alimentação é quem vai levar os ingredientes e energia para todo nosso corpo, incluindo nosso cérebro. Quanto melhor conseguimos nos alimentar, melhor é a qualidade de energia que dispensamos ao nosso cérebro, para que ele possa criar novas conexões. Quanto mais conexões, mais caminhos o cérebro vai poder criar no repasse das informações dentro dele.

Muitos estudos vem mostrando a importância de centro de convivência de idosos, como um fator de proteção para doenças degenerativas, ou seja, a convivência com seus pares, com outras pessoas, o sair de casa, tudo isso é combustível para proteção do cérebro. E aí, não só em relação às demências, mas também a quadros como depressão – que podem, indiretamente, levar a quadros demenciais se não forem cuidados. Claro, não precisa ser um centro de convivência se você não acha que isso cabe para sua realidade, mas algo que faça sentido, que te estimule a conviver com mais pessoas, sair de casa, ver gente nova, fazer ou manter as amizades.

Caso você já tenha passado da fase jovem, não precisa achar que tudo está perdido. Todas as dicas referentes à reserva cognitiva podem e devem ser utilizadas para proteção de nosso cérebro em qualquer idade. Até mesmo quando mais velhos, a prática dessas atividades que falei aí em cima vão, também, contribuir como fator de proteção e estimulação do cérebro, visando um pouco mais de reserva cognitiva nessa fase da vida.

A nossa reserva cognitiva é influenciada por vários fatores que, juntos, mostram que podem ajudar nosso cérebro a trabalhar melhor, mesmo com algum quadro demencial instalado. Infelizmente, ainda não descobrimos como reverter os quadros, mas os estudos vem mostrando que cada vez mais, quanto mais investimentos em colocar nosso cérebro pra funcionar e trabalhar, melhor as chances que ele possa, caso entre em um quadro demencial, ir perdendo seu funcionamento mais devagar. Junto com orientações médicas e outras práticas, como reabilitação, isso pode retardar ainda mais as perdas.

Então, já que não temos tempo a perder no cuidado com a gente mesmo, que tal começar a procurar novos programas para frequentar? Que atividades você gostaria de fazer que não fez? Que tal ler aquele livro que você pensou em ler e acabou enrolando? E aquele filme novo no cinema? A reunião com os amigos? Algum curso rápido de alguma curiosidade que você sempre teve, mas acabou se enrolando pra fazer? Aquela atividade física que o médico liberou, mas você acabou enrolando? O que mais você pode fazer para colocar sua cabeça para trabalhar e te ajudar a cuidar de você mesmo? Vamos lá colocar a cabeça pra pensar e aumentar sua “reserva de neurônios” pro futuro? Todo tempo é tempo e toda ajuda é melhor do que nenhuma, né?


Abraços e até nosso próximo texto!

Ah! Caso você tenha alguma dúvida ou queira que eu fale sobre algum tema específico, escreva para a gente!! A participação de vocês é essencial!

CAMILLA MONTI OLIVEIRA


Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês.


cmontioli@gmail.com

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