O USO DAS TECNOLOGIAS PARA ESTIMULAR O CÉREBRO


Cada vez mais, recebo perguntas de alguns pacientes, cuidadores e até de pessoas que convivem comigo, sobre o uso de aplicativos que se dispõe a “estimular” o cérebro, em uma espécie de “ginástica cerebral”. A ideia da maioria dos aplicativos, é de que treinando seu cérebro todo dia através dos joguinhos propostos, você fortaleceria ele através da repetição e aumento das dificuldades nas tarefas propostas nos joguinhos, da mesma maneira que quem faz academia, fortalece os músculos se treinar constantemente. Mas e aí? Afinal, trabalhando com neurociência, estimulação, reabilitação todo dia, qual o veredicto? Os aplicativos ajudam mesmo a turbinar a memória? Servem para todo mundo? Ajuda quem é mais idoso e tá demenciando? É a melhor forma da gente evitar desenvolver algum tipo de demência? Vamos lá...

Como a maioria dos psicólogos, eu vou responder primeiro, como sempre: depende! Depende? Sim! Por que nem todo mundo é igual, por que nem todo treino é a mesma coisa e, o mais importante quando a gente pensa tanto em reabilitar quanto em estimular, a gente precisa levar em conta que além do treino, tem um ser humano querendo/precisando ser treinado! Do mesmo jeito que nenhum treino de academia é igual para todo mundo (já conversaram com um educador físico sobre isso?), nenhum jogo ou aplicativo de celular vai ajudar diferentes pessoas do mesmo jeito. Então quer dizer que eles não funcionam? Não também. Na verdade, tanto jogos quanto aplicativos de celular/ tablets devem ser vistos como mais uma ferramenta possível pra ajudar tanto quem reabilita, quanto quem é reabilitado. Eles podem ser ótimos instrumentos se, junto com o paciente, tem um profissional ajudando, orientando sobre como jogar e, principalmente, quais os objetivos que podem ser alcançados em determinada tarefa, assim como, a partir de alguns jogos, a gente pode extrapolar para a vida real os aprendizados.

Ah, seria igual fazer palavra cruzada? Bem por aí. Toda e qualquer atividade, seja ela no papel, no tablet, no celular ou no consultório, tem de ser compreendida com um objetivo que se conecta, de alguma maneira, com a vida prática daquele paciente em questão. De que adianta fazer palavra cruzada agora, se ele nunca fez isso antes? Ou então colocar alguém pra jogar um joguinho de localização se a pessoa nunca precisou prestar atenção nos caminhos que faz, por que sempre andou acompanhada de alguém? E aí, não tem como a gente generalizar um treino de celular para todo mundo e achar que ele funciona do mesmo jeito. Mas não vamos encará-los como inimigos, pois não são. De novo, vou ser a chata: depende sempre do uso que a gente vai fazer. Eu gosto muito de utilizar aplicativos com meus pacientes, mas sempre, para além do uso do aplicativo, eu preciso ver o humano, preciso pensar e elaborar estratégias que devem beneficiá-lo com aquela tarefa, pensando como ela poderá ajudá-lo não só ali comigo no consultório, mas também na sua vida diária, como ele vai conseguir continuar treinando em casa de um jeito que a gente possa ir avaliando seus ganhos no dia a dia.

Então quando vocês se depararem com um novo joguinho que alguém indicou, se façam essa pergunta: qual o objetivo dele? No que ele poderá me ajudar? Será que vai ser útil pro meu cérebro e minha rotina? E, claro, na dúvida, por que não procurar um profissional pra te ajudar a dar essa impulsionada com você? Se você tá aí preocupado em cuidar do seu corpo, frequentando a academia, por que não colocar a cabeça também pra ser estimulada?


CAMILLA MONTI OLIVEIRA

Psicóloga e neuropsicóloga, escreve na coluna de Neuropsicologia do BLOG GERATIVIDADE toda terceira semana do mês.

cmontioli@gmail.com

Posts Em Destaque
Posts Recentes
Arquivo
Procurar por tags
Siga
  • Facebook Basic Square